domingo, 26 de maio de 2013

Senhor Cactus

Um dia eu conheci um cacto. Ele estava lá, parado, contemplando o nada, meio cabisbaixo. Sentei-me ao seu lado.
- Bom dia, Senhor Cactus. - falei.
- Bom dia. - ele respondeu, parecia tímido.
Fiquei tentando olhar para a mesma direção que ele, mas o Sr. Cactus não olhava para direção alguma.
- Está tudo bem? - perguntei.


Ele demorou para responder. Meditou sobre essa questão por algumas horas. Contou seus espinhos, olhou para o horizonte, deu alguns suspiros.
- Eu não sei bem. - Por fim, respondeu.
- Não sabe?
- Não.


Estava quente. O deserto era, de fato, solitário.
- Você fica sempre por aqui, Sr. Cactus?
- Sim.
- Deve ser ruim... Não ter ninguém pra conversar...
O Sr. Cactus deu mais outro suspiro.


- Às vezes algumas pessoas passam... - falou, ainda tímido.
- E você conversa com elas?
- Elas só passam. Falam algumas tolices, me cativam... E passam.
Ele recontou seus espinhos.
O sol subia.


- Eu não vou passar, Sr. Cactus. Não tenho para onde ir. Posso ficar com você?
- Ficar? - ele pareceu hesitar. - Ninguém fica, Lagarta. Você vai arranjar um lugar para ir.
- Mas eu não quero ir.


O sol estava no seu ápice.
- Está quente... - falei.
- Aqui é assim... Muito quente agora, muito frio à noite. Muito sozinho o tempo todo.
- Não me sinto sozinha agora.
- É... Nem eu...
O Sr. Cactus olhou para o horizonte.


- Eu acho que estou com muita sede...
- Sede? Eu não sinto sede. Só de algumas coisas.- havia me esquecido de que ele era um cacto.
- Eu sinto sede de várias coisas, mas agora eu sinto sede de água.
- Hm...
Eu me aproximei.
- Ai! - exclamei de dor.
- O que? O que foi? Te machuquei? - O Sr. Cactus parecia preocupado.
- Foi um espinho, eu não tinha visto...
- Me desculpa... Ando tentando esconder essas coisas... As pessoas não se aproximam por causa delas... Elas têm medo...
- Eu não tenho medo, Sr. Cactus...


O sol ressecava minha pele.
- Você está bem? - Sr. Cactus me perguntou.
- Estou sim.
- O espinho... Ele ainda dói?
- Um pouco, mas daqui a pouco cicatriza.
- Me desculpa...
- Eu não me importo, está tudo bem.


Sr. Cactus pegou um de seus espinhos e se abriu.
- Quer água?


Eu bebi de sua água.


- Ela é tão saborosa, Sr. Cactus. Nunca tinha bebido algo tão bom, parece ser a melhor de todas as águas.
Ele pareceu sorrir.
Anoitecia.


- Aqui é tão frio. - aproximei-me mais do Sr. Cactus.
- Me sinto quente.
- Eu também.


Alguns viajantes passavam, mas o Sr. Cactus não ligou. Ele tinha sua Lagarta. Eu adormeci entre seus espinhos, feliz. O tempo não deveria passar tão rápido.


- Estou com medo...
- Por quê, Lagarta?
- Meu tempo é curto...
Sr. Cactus chorou.


- Quer mais água?
- Sim... - respondi, um pouco fraca.
- Você está bem?
- Nunca me senti tão bem em toda minha vida.


Sr. Cactus já não contava seus espinhos, nem suspirava, nem olhava para o horizonte.


Alguns momentos depois ele suspirou.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Olhos Castanhos - Capítulo 1



A cidade remexia-se rotineiramente. Fortaleza, cinco e quinze. O que eu ainda fazia naquela cobertura? O sol derramava laranja pelo céu, a água da piscina cintilava ternamente e seus olhos castanhos me estremeciam.
Eu preciso sair daqui.
Será que alguém vê o que está acontecendo? Será que meus olhos estão me enganando? Será que tudo faz parte de uma brincadeira da minha mente?
A quem eu quero enganar? Algo com certeza havia mudado.
O ar parecia envenenado e a cada momento a mais que eu me permitia estar aqui, mais meu corpo cedia e se despedaçava. Seus olhos pareciam me manter imóvel, era como se daquela água eu não pudesse mais sair, hipnotizavam-me, enquanto me devoravam voluptuosamente, sem que eu permitisse.
- Amélia, você está bem? - Pedro me perguntou, me tirando daquele transe.
- Hm? - Ah. - Estou... Eu... Eu acho que já vou para casa. Está ficando tarde...
- Tarde? Mas nem escuro está, Amélia! Vamos, fica aqui, minha vida é tão solitária sem vocês. Eu juro que morar sozinha é um saco. - Verônica falou, com aquela voz forte e ácida.
- É que eu prometi estar em casa às seis. Tenho que arrumar umas coisas da mudança...
- Acho que é desculpa viu, ela vai bem se encontrar com aquele tal de Gustavo. - João e seus comentários desnecessários... Mas de fato, nunca estava errado.
- Gustavo é? - Dei um pequeno sorriso -  Nunca conto muito com a presença dele quando eu chamo, mas... Quem sabe né?
Verônica não parecia gostar muito quando o nome dele era mencionado. Gustavo Viana. Conheço-o há uns sete meses e dele ainda digo pouca coisa, por medo de talvez estar errada. Não ouso defini-lo como um rapaz diferente dos outros, mas ele tinha lá o seu charme. De uma forma absurdamente desproposital ele exalava lascívia, e o sorriso dele mantinha qualquer fera ternamente apaixonada, sua voz tinha um timbre viciante, e o seu olhar...- Ah, o seu olhar... - Por vezes, parecia o de um animal que se alimenta da caça - era feroz, vulgar e cheio de satisfação - mas ainda assim ingênuo, como o de um filhote que acabara de nascer e necessita de seu primeiro aleitamento.
Seus olhos também eram castanhos, bem negros. E sua alma era morena-café, parece ter sido feita numa tarde para ser acordada à noite, era envolvente e ativa, mas sabia bem onde cada segredo deveria ser guardado. Ele seria meu namorado, se não fosse meu amante. - E que amante.
- Hm. Pois vá lá ver esse menino. - Disse Verônica virando-se em direção ao deck.
- E-eu posso ficar se quiser... - Não posso.
- Não. Não precisa... - Delicadamente seu rosto passou da repulsa para um sorriso simpático. - Tenho certeza de que qualquer coisa que você for fazer com ele vai ser bem mais proveitoso que passar um tempo conosco né? - E do sorriso simpático, ele foi para um sorriso de provocação -  Afinal, não podemos te dar sexo.
Todos riram, mas não foi lá tão engraçado. De uma forma estranha eu amo e odeio Verônica. De uma forma estranha, eu amo Verônica. Ela tinha motivos para não gostar tanto assim do Gustavo. Meu relacionamento com ele sempre foi sem nome -  era como um gato de rua, que às vezes alimentava-se apressadamente, com medo de alguém ver ou enojar-se, logo após, era como se alguém o adotasse e cuidasse dele com carinho, mas como todo bom gato de rua, logo batia a saudade da adrenalina. - Ele enriquecia meus sentimentos com confusão e paixão e, sinceramente, preferia pensar que era apenas com isso. Verônica Lima achava que ele me usava. Na verdade, ela parecia ter certeza disso.
Ela estava no deck comendo uma carne assada que compramos na churrascaria ao lado, por ninguém saber ao certo como se faz churrasco. Catava as melhores partes com a mão e jogava dentro da farofa, deixando a carne completamente coberta e depois catava de volta para levar até sua boca.
- Essa carne já tá fria, nam.
Saí da piscina e me enxuguei. Observei Verônica, por alguns momentos, repetir aqueles movimentos e parecer também repetir aquela frase mentalmente. Ela estava com um biquíni preto e seus longos cabelos escuros grudavam em suas costas molhadas. Tinha uma pele bem branca e uma tatuagem logo abaixo do seio esquerdo, era uma frase retirada de uma poesia de Cecília de Meireles. - Sei que canto. E a canção é tudo.
Ele até poderia me usar - o Gustavo. - mas eu também o usava. Do corpo dele eu me aproveitava de tudo que me desse prazer. Éramos apenas carne um para o outro. E, diferente aquela que Verônica mastigava, nossa carne era quente, era por si só deliciosa, não precisava de mais nada.
O sol já estava ameno e a lua já sussurrava o surgir da noite. Ventava muito na cobertura. Não conseguia entender como Verônica aguentava aquele frio, - A primeira coisa que quis fazer ao sair da piscina foi me enxugar e vestir minhas roupas. - mas ela estava lá exibindo aquele corpo longo, cheio de constelações - Sinais, de fato - , apoiada no balcão do deck.
- Ei, Vê, acho que vou com a Amélia, deixar ela ir sozinha para a parada é meio perigoso. - João vestia-se e sorria docemente para mim. - E a gente pega o mesmo ônibus de qualquer forma.
- Eu não sei o que vocês tem que gostam tanto de me abandonar. - Verônica sorria. Ela não era do tipo que implorava por carinho, mas, de fato, sentia-se sozinha.
Verônica perdeu o pai há uns dois anos num acidente - sobre o qual ela nunca falou muito - e sua mãe mudou-se para Sobral, não conseguira superar a morte de seu marido
e quis esquecer-se de tudo indo morar junto de suas irmãs. Verônica já estava na faculdade e tinha um bom emprego na capital, não poderia se mudar e atrasar toda a sua vida, mas era notável a falta que sua mãe fazia.
Ela morava, então, sozinha, num apartamento na Avenida Beira Mar, quem pagava o aluguel era sua mãe, que era uma promotora famosa na cidade. Era de um grupo do Theatro José de Alencar, fazia artes cênicas na Universidade Federal do Ceará, e - sei que já era de se esperar - seu sonho era ser uma atriz famosa. Havia feito algumas participações em comerciais, e estrelado com papeis principais em algumas peças, mas seu objetivo era o cinema.  E quando perguntada sobre ser atriz de novela, ela apenas te lança aquele olhar afiado e oblíquo que te corta em mil pedaços - Então você já sabe a resposta.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Desejos


Da boca, eu desejo o beijo, do corpo, eu desejo o toque e dos olhos, desejo teu infinito. Das cores, que brilhem, cintilem, exalem cheiro e deixem sabor. E que, como os morangos, desejo que a vida seja suculenta, doce, mas um pouco ácida, quero que ela deixe o seu gosto na língua, e que satisfaça, mas nunca por completo. Desejo um amor no desjejum e uma paixão na ceia, e durante a tarde peço emoções para quase desfalecer e um sentimento pulsante como um coração, que me mantenha viva, que me faça sentir existir.