domingo, 24 de novembro de 2013

Morrer, viver, ser, encontrar-se, e essas coisas todas que nos importam e não nos importa.

Um dia ele morreu. E, quando ele morreu, finalmente ficou satisfeito. O corpo miúdo em que se encontrava anteriormente começava a perecer. Morreu cedo, morreu tarde, existem controvérsias e vários pontos de vista. Ele não se importava. Ele REALMENTE não se importava. E nenhum de vocês sabe como é não dar a mínima para si. Ele finalmente pôde desdobrar sua alma e encontrou o infinito. Ele era quem ele queria ser, era o que ele poderia ser, era o que ele nunca imaginou que seria, e por incrível que pareça não houve desapontamento, pois ele não tinha mais nome, não carregava nenhum rótulo, e os preconceitos não existiam, o conceito era reformulado de segundo em segundo, ao ponto que nem conceitos poderiam mais existir. E ele sabia de tudo sobre mundo e não sabia nada. Descobriu milhões de coisas, guardou elas nos buraquinhos que aquele corpo peçonhento fez na alma, encheu-se. E de tanto se encher, expandia-se mais e mais. Ele sabia que poderia ser o próprio infinito. Sabia que era isso que se tornaria.
Atordoado, percebeu por fim que por si já estava finito. Percebeu que havia mais nada a se fazer consigo. Mas era algo inerente a sua alma ser infinito. O que poderia estar faltando? De longe observou a Terra novamente. Como havia sentido raiva daquele lugar…  Como sabia que lá não era onde ele pertencia… Mas algo havia sido deixado lá. Sim… Era isso… A sua alma… Uma alma grande como o infinito não caberia em um corpo só. Fora dividida.
Existia mais alguém com sua alma. Alguém igual a ele. Alguém…
Mas… Então… Aquele sentimento de vazio, de não pertencer, de algo além… Era a falta de si. De encontrar-se. Procurando em si algo que nunca poderia achar, ele foi infeliz. E como uma luz de amanhecer entrando por sua janela, ele soube que bastava achar-se em outro alguém para ser feliz.
E nenhum de vocês sabe como é se importar consigo. Num impulso (parecido com a morte), decidiu voltar. Deveria achar sua outra parte. Dobrou-se mil vezes e foi.


Num choro agudo. Em 1994.

domingo, 13 de outubro de 2013

Qual o seu nome?

Ela acordou como se o ontem não houvesse existido. Tomou café, escovou os dentes, leu os jornais. Decidiu não ir à aula. Decidiu não ver pessoas. Escondeu-se no cobertor, assistiu filmes e passou esse dia assim.
No outro dia, ela acordou como se a semana não houvesse passado. Escreveu dois poemas de cinco estrofes sobre a luz do sol. Tomou chá e rezou. Era um dia de domingo anormal.
Dia seguinte era uma quinta e precisava ir para a aula. Mas o domingo se prolongou por mais algumas semanas.
Arrumou o quarto em uma sexta, descobriu onde havia perdido um livro que lera na infância. Resolveu relê-lo, mas parou na oitava página. Resolveu esquecer sua infância também. Esquecer não. Tal época nunca existiu.
Achou o celular jogado nas roupas sujas do banheiro na madrugada de sábado. Nada de novo, realmente não tinha esperanças que alguém a ligasse. Nenhuma esperança mesmo. Até decidiu que esperança era apenas uma palavra sem significado.
No domingo saiu de casa. Foi para um bar à noite. Onde encontrou vários amigos. Sarah e Fred. Eles acenaram de longe e disseram que já estavam de saída. Ela também estava, mas eles iam para um lado totalmente contrário ao dela. Apesar de ela saber que a casa deles não era para aquele lado, sorriu e pegou um ônibus.
No ônibus, haviam quatro pessoas. O motorista, o trocador, um homem e ela. O homem sentou-se ao lado dela e anunciou um sequestro. Sem querer ela deu uma risada e levou um tiro. O motorista quis parar o ônibus no desespero, mas o homem mandou continuar a dirigir o automóvel. O trocador olhava para a cena espantado, só pensava nos seus filhos (que ainda não tinha) e na sua mulher (a mulher do restaurante que não cobrou os 10%).
Ela sangrava. Sentia um prazer diferente. Um alívio. Era entorpecente o terror que sentia.
O homem estava assustado por ela não parar de sorrir. Era o pior sorriso que ele já havia visto. Ele identificou como o sorriso que sua mãe deu quando ele tinha 10 anos e perguntou pelo paradeiro de seu pai. Apesar de sua mãe não ter sorrido de fato.
Ela sentiu algo estranho querer subir por sua garganta e relembrou de fatos inexistentes da infância. Lembrou do Francisco. Um homem que, segundo ela, deveria ter levado um tiro em seu lugar.
Vomitou sangue e riu novamente. Ela não pensava em muita coisa. Mas lembrou dos dias que não existiram. Do amor que nunca teve. Dos amigos que moravam longe e da família que não havia morrido, mas participava da sua vida.
Decidiu esquecer tudo. O ônibus estava girando morro abaixo.
O último barulho que ela identificou, mesmo que com dificuldade, foi o do seu celular tocando.
Ela deu o último sorriso de prazer da semana. Mesmo que sua cota de sorrisos diários já houvessem se extrapolado.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Primeira Carta

Querido João, (é assim que se começa uma carta?)

Antes de tudo, eu sei que desapareci… Antes mesmo de adoecer, eu me deixei desaparecer… Eu sempre faço isso… Deixo as coisas seguirem rumos aleatórios e muitas vezes indesejados. Mas eu nunca me esqueci daqueles dias olhando para o céu e imaginando nossos anos de glória que ainda estavam por vir. Nunca me esqueci das cenas de musicais que contracenamos sem música. Nunca me esqueci do beijo que não deveríamos ter dado. E dos outros beijos que também não deveríamos ter continuado. Ou deveríamos.
Depois de um tempo pensando, eu percebi que o erro foi a poesia. Ela que corrompeu nossas almas e nos fez mais apaixonados por tudo, a arte que corria nos nossos sangues fez tudo intenso demais. Intenso demais. Perfeitamente intenso. A paixão pela música, fez a nossa trilha sonora ser a melhor trilha sonora. A paixão pela literatura, fez a nossa literatura ser a melhor literatura. A paixão entre nós, fez de nós perfeitos. Mesmo que paixão não tenha sido. ("Isso é o que eles querem que você pense")
Você sabe como você é complicado. Você é assim: tudo o que acontece ao seu redor pode estar certo, mas do nada tudo pode vir a estar definitivamente errado.
Como a gente, que uma hora era para ser para sempre e na outra era melhor que nunca tivesse sido.
Só nós sabemos da nossa ligação. De como, no dia que te conheci, algo em algum lugar brilhou, chacoalhou e cantou. E mesmo que agora façam alguns meses sem ter nenhum contato com você, eu sei que ter te conhecido foi a perfeição.
Peço que perdoe-me por ter desaparecido, eu tive medo de você não querer mais me ver. E o medo virou vergonha de ter parado de falar com você… E a vergonha virou medo de voltar a falar com você.
Peço que perdoe-me por desaparecer de novo.
Amo você. Fique bem.

"Caso você recebesse um prazo, como iria vivê-lo?"

Ela havia escrito cartas. Sentada no chão, envelopava cada uma com carinho singular. Delicadamente dobrava o papel branco e colava os selos. Hoje seria o dia que as estrelas a levariam para onde ela sempre pertenceu.
Lá fora nevava. “Será que elas vão conseguir vir me buscar nesse frio?”, pensava ela.
A caneca com chocolate quente fazia manchas circulares no soalho.
“Ainda bem que o natal já passou.”
Ela chorava de pouquinho.
Queria que as palavras tivessem movimento, que dançassem, que pudessem brincar de pega-pega e esconde-esconde, queria que elas cochichassem ao pé do ouvido, que tivessem cheiro e sabor… Mas, palavras precisam de cuidado, senão são tão frias quanto os flocos que caíam lá fora do céu.
Um rato cavocava a parede.
Ai ai ai...”, é sempre difícil se levantar sentindo dor. Ela se dirigiu à sua cama desarrumada e deitou-se com cuidado.
As cartas no chão cantavam baixinho, sem ela perceber.
Por alguns meses esquecida por todos, agora ela sabia que ninguém sentiria tanto a sua falta, quando o fim permanente chegasse.
O maior medo dela era do fim ser mesmo permanente.
A leve cantoria atraía as estrelas para mais perto, da janela observavam o lento adormecer da menina.
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Naquela noite, ninguém viu, mas surgiu mais uma estrela no infinito.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Musiquinha

Uma música baixinha ecoa
Notas há muito esquecidas
Algumas que eu mal sabia que existiam.
Uma melodia com cheiro de flores e sabor doce
Com cor de purpurina e enfeitada com balões coloridos
Num quarto branco e iluminado
Sozinha eu a ouço.
Tons delicados de anil discretamente preenchem o teto do cômodo
E eu quase via o céu


O ritmo me convida para dançar
Ah... E é como se eu fosse tão graciosa quanto esses pássaros
Que voam e cantam alegres, junto com a melodia crescente
Depois de rodopios e passos meio bobos
Respiro ofegante, mas não estou mais cansada
Meus pés diziam adeus ao chão
Minha mente sobrevoava o quarto
E eu quase tocava o céu


Abri uma cortina e percebi flores bordadas
Procurei a origem da música
Examinei gavetas antigas
Prateleiras empoeiradas
Guarda-roupas quebrados
Mas todos os lugares que eu havia procurado
Estavam vazios.
Foi aí que sem querer eu a achei
Escondidinha, atrás de rachaduras do meu peito
Uma pequena e delicada caixinha de música
Ela tocava tímida, mas vibrante
A melodia do meu coração.

Julieta

E docemente, como chocolate, abriu um sorriso que eu poderia morder.


Surpreendeu-me como me cativastes cedo e sem ao menos conhecer-te bem. Se não existia amor ao primeiro ver, agora existe. E as fagulhas que teus olhos expeliam tocaram incandescentes na minha pele, se tal fogo antes queimava, agora só aquece. E mal notei que minha pele descascava, que eu me tornava vulnerável, e ao segundo toque de teu olhar, quase não suportei, por que não era comigo que você estava naquele dia.
Já acostumada a não me deixar cativar, via todas as pessoas mais de longe, a uma distância segura, certa de que sozinha, dentro da minha fortaleza, tudo iria funcionar como o planejado, mas dessa distância eu te vi, e percebi que precisava de ti tão mais perto.


P.S.: Eu não ia postar esse pequeno texto, mas é que sei lá sabe.

domingo, 21 de julho de 2013

Um doce presente feito de ouro.

Um dia, andando pelas ruas da noite, em um caminho meio que distante de tudo aquilo que algum dia eu já andei, encontrei você.  Estranha, desengonçada, engraçada e ao mesmo tempo meiga, mas nada que fosse alguma coisa para os meus olhos naquele momento.  O conhecido desconhecido,  o alguém que estava lá mas ao mesmo tempo não estava, como um personagem coadjuvante em um emaranhado de estórias paralelas da minha vida, como todos aqueles que me cercavam de alguma forma... Praticamente inofensiva.
Após o dia, conversas foram, conversas vieram ; risos, abraços, problemas compartilhados, medos expostos, uma gotícula de vida transbordando diante de um breve encontro impessoal.  E para todos os meus pré-conceitos e idéias, tudo se mostrou tão... tão... humano.
Você aparenta ser promiscua, alguém não tão importante, mas tudo me erra nesse principio. O lado por trás da mortalha de tal papel vivido para os demais, existe alguém que sangra, e esse alguém está cheio de tesouros, uma vida de cicatrizes, de erros e acertos, mas uma vida que não tem a intenção de emergir para ninguém. A vida de alguém que desperta o meu interesse, me faz refletir, que me faz revisitar a minha própria, e relembrar aquilo que sempre prometi: ver além de tudo...
Não sei se me perco em devaneio e subjetividade, ou se retorno e digo as coisas cruas, mas um eu lírico ou simplesmente o eu do passado, pede um pouco de essência, para alguém com tão pouco revelado mais um mar a ser desbravado. Enxergar como um empreendedor de sonhos que esse diamante tem muito o quê ser extraído; riquezas que não servirão para ninguém, a não ser para você mesma, e de mim, só teria a alegria de observar, nem q seja de longe, essas maravilhas que podem surgir.
E tudo tão imenso, que tenho medo de dizer e não ser compreendido corretamente, por que as palavras podem pecar, mas a sensibilidade fala outra língua, como um fluxo intuitivo continuo de que, tudo o que você pode ser, será mil vezes melhor, só depende de você.

Todas as ruas e sonhos, todos os encontros e desencontros, estar aqui, só servem para me dizer que, uma amiga, ou melhor, uma pessoa, com um enorme potencial, não pode ser, simplesmente ou praticamente inofensiva; praticamente inofensiva.

Autoria: Emerson Maciel.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Fim de Amor

Carregada de emoções, com os pulsos judiados. Corria naquele corredor há horas. Um passo a cada hora. Delicadamente arrancava da boca a lembrança do beijo daquele menino. Lentamente apressava-se até o final daquele corredor. A porta parecia querer abraçá-la, embalar a doce donzela por mais algumas horas dolorosas. Impaciente, o silêncio gritava por ação. Ela esperava as horas terminarem, remoendo e removendo a cor dos esmaltes com os dentes. Do minuto, ela sentia um ano coçando sua coluna. E a maçaneta pedia a mão da moça em casamento. A moça poderia aceitar se a maçaneta pudesse vestir uma roupa bonita. O gemer prazeroso da porta indicava que a saída seria melhor que o esperado. O doce raio de sol cresceu dentro dos olhos da menina. Aceitou seu trágico destino de não ser amada e arrumou as malas. O vento soprou-a para outro universo onde poderia manter o esmalte na unha intacto.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Precisado

Eu precisava de mais um gole amargo do vinho barato.
Eu precisava de mais uma dose intragável daquela pinga incolor.
Precisava dum pedaço daquele pão dormido
Duma tragada daquele cachimbo
Dum beijo do garçom
Precisava do algo mais debruçado na mesa redonda
Eu precisava daqueles panos sujos
Eu precisava me limpar os vômitos
Precisava catar os queijos do esgoto
Comê-los, deliciar-me
Precisava de uma cédula
De um corpo retirar algum dinheiro
De uma arma, arranjar um corpo
Daí então retirar o algum
E ao garçom pedir mais uma rodada daquilo
Daquilo que nem sei mais o nome
Mas de todos aquilos, parecia ter o melhor sabor.


A visão começou a tresloucar
Sussurraram três tiros
Na pele, o sangue nem queria escorrer
O sorriso deu uma risada
Fechou-se a conta
Quantas doses de bebidas amargas pagam meu erro?
Alguém gritou uma prece
Não rezem perto de mim.
Precisava agora de novo daqueles panos sujos
Precisava do algum
Alguém chame um médico!
Desculpe, garçom, foi bom enquanto durou
Mas meu coração foi atingido
Oh, você não é meu garçom
Não me aperte assim,
O que você está fazendo?
Garçom?
Mova-me, mas não queira me retirar.


Trocaram-me a blusa
A estampa rubra formava-se
Numa veste semelhante à minha
Contudo, trocaram-me
Pouco tempo depois a luz pálida cegou-me
Chegou-me meia-noção
De fato, a blusa era minha.


Soantemente o delicado barulho da vida irritava-me
Os bipes gritavam na minha enxaqueca
A ressaca entorpecida com alguns tubos engraçados
Estendido estava lá eu
Taciturno, semi-vivo
Mil homens banhados de luz
Estendiam ao meu peito bisturis e agulhas
Entendiam o meu coração, será?
Quase lembro-me da sensação
Era como se apaixonar
Que droga.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

ELA IA EXPLODIR.

A respiração começou a ficar ofegante, o coração batia cada vez mais rápido, as mãos tremiam. Por que não sangra? Por quê? Ela quer que escorra muito, muito, o mais rápido possível, o mais violento possível, ela quer que rasgue, que corroa, ela quer explodir, de novo, como sempre, ou como nunca, ela quer o pra sempre infinito que todos falam, ela quer aquilo que ela menos tem, ela quer tudo o que ela nada teve, ela quer sentir escorrer tudo, todos, a vida, a morte e o amor, o que é amizade pra ela agora? A navalha parecia entender melhor.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Do branco ao vermelho, não veio Rosa.

Rasgou os pulsos
Ateou fogo às memórias
Afogou as cartas
Mutilou a alma
Desnuda, achou-se feia
O medo escorria do seu sangue
Por seu corpo alvo.


O alvo era o corpo,
Atingiu o coração
Junto com os pulsos,
as memórias,
as cartas,
E, então, a alma.
Achou que seria mais bela assim.

E a brancura imaculada, transformou-se em rubro corrompido.

Alvorecer

No calcanhar da noite,
Amanhecia de quase em quase
Tarde demais ou cedo demais?
Ainda me perguntava
Li no teu corpo todos os teus desejos
Inspirei o teu cheiro e senti tua malícia e
Antes que seja tarde,
Ou agora, pois ainda é cedo
Peço-te mais um beijo.


E do beijo, peço-te um pouco mais
Peço que tua vontade
Norteie-me por cada parte de ti
Anseio tocar-te as vergonhas
Tornar-te-ás minha
Até que tu julgues que não me queres mais
Luar virará Estrela do Dia e os
Instantes que restarão serão para te observar
Amanhecer por completo.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

A Equilibrista

Ela se apressava, precisava recolher todos os pedaços antes que alguém notasse. Estava toda quebrada, mas precisava se recompor, passar um batom, um blush, dizer que está tudo bem, que não havia passado a noite chorando.
Eu não passei a noite chorando. - ela repetia para si, esperando acreditar na própria mentira. Precisava entrar no personagem, o picadeiro a esperava. De longe ouvia a música começar, as risadas, os gritos de euforia. E havia ainda tantos pedaços no chão.
Ela segurava as partes de si, mas elas caíam mais e mais. Jogou tudo em cima da cama, desapareceu dentro do guarda-roupa. Se eu usar uma roupa grande, ninguém percebe. - pensou. Achou um vestido longo e pomposo. E daí se ela parecia uma louca dentro daquilo? O importante era que o show continuasse, ela não poderia estragar tudo.
Procurou o batom mais chamativo, colocou os cílios postiços, calçou a sapatilha, passou blush, repetiu seu mantra mais algumas vezes.
Guardou seus pedaços em cima da cama, deixou-os enrolados no lençol. Abriu um sorriso, talvez o mais feio que já havia sorrido, ela não se sentia sorrir, mas deixou seus dentes brancos à mostra mesmo assim. Correu para o seu local, seu show seria o próximo.
Enquanto ela desfilava sua beleza e equilibrava-se na corda bamba, debaixo da cama, perdido, algo pulsava. Ela havia esquecido uma parte. Ela havia se esquecido de seu coração.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Riminha boba sem título

Beijo teu pescoço
Que é?
Sussurras sem notar
Quase não te ouço
Quer mais um cafuné?
Deixa eu te acarinhar

Dorme bem, moço
Quando acordar te faço o café
E amor, se precisar.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Essência de ti

Esse é o teu cheiro
Aconchego-me nele, como se fosse em ti
Abraço-o forte
Sinto-o perto
Espero dissipar
Mas ele não sai mais de mim
Agarrou minha pele
Embrenhou-se em minhas madeixas
Fez morada no meu coração
Apossou-se dos meus lábios
Fez meus olhos cegos
Meus ouvidos surdos
Meu sexo exclusivo
E virou dono de todos os meus sorrisos.

domingo, 26 de maio de 2013

Celeste

Era um dia ensolarado. Bastante ensolarado, de fato. Era aquele típico dia em que todo mundo não quer sair de casa, mas precisa. Uma típica segunda-feira de sol.
Havia esse garoto na rua, seu nome talvez rimasse com pão, algodão-doce ou pé-de-moleque, mas infelizmente seu nome não importa, por que para a maioria das pessoas ele é sem nome. Ele talvez brincasse no asfalto quente, ou descansasse, ou planejasse roubar o croissant que encontrava-se em cima de uma mesinha a não mais de 2 metros de distância dele. Ou talvez só observasse o nada atentamente, mesmo.
Nada além do típico.
Ah, claro. Tirando aquela - talvez não-típica, mas não dou certeza, afinal, também sou um sem nome - baleia no céu.
Ops, perdoem-me o erro, - não esqueçam que eu não tenho nome, esses errinhos sempre acontecem, bem típico. - não era realmente uma baleia... Estava mais para um golfinho.

- Mas orcas são baleias! Baleias-assasinas! - Vocês dirão.
Estúpidos! Burros! IGNORANTES!
“A orca (Orcinus orca), é o membro de maior porte da família dos golfinhos (Delphinidae, ordem dos cetáceos) e um superpredador versátil, que inclui na sua dieta presas como peixes, moluscos, aves, tartarugas, focas, tubarões e animais de tamanho maior quando caçam em grupo, como por exemplo baleias.A designação "baleia-assassina" não é a mais correcta por ser uma tradução directa do inglês "killer whale", e pelo facto de o animal não ser uma baleia.”
Até nosso amigo Wikialgumacoisa sabe disso.

Havia uma moça sentada numa lanchonete também. Ela comia um croissant delicioso e evitava olhar à sua esquerda, como geralmente fazia - onde coincidentemente havia um garoto sentado na calçada. - Ela também evitava olhar o garçom, pois - obviamente - ele queria ficar com ela e ele - evidentemente - não era bom o suficiente para ela. Evitava também balançar o pé repetidamente de um lado para o outro, pois sua mãe dizia que tal cacoete era coisa de gente velha - coisa que ela não queria ser, de maneira alguma. - Assim como evitava olhar o céu. Só por evitar mesmo.
O que é mesmo uma pena, estava perdendo um grande show. A orca dançava no ar como se nadasse no mar, ela sorria. - Sei que orcas não sorriem, mas sejam gentis, esta orca com certeza estava feliz. - Até perceber que ninguém a havia percebido.
Havia um rapaz, ainda, atrás de um balcão numa lanchonete. Ele vestia um bonito uniforme preto e branco, ele adorava essa combinação. Uniformes de garçom estavam in neste verão. Ele gostava muito de rosa, mas não gostava de usar roupas rosas. - Ou talvez só tivesse medo. - Ele também gostava muito de shorts curtos, mas não gostava de usá-los. - Ou talvez não tivesse coragem. - E, além disso, ele gostava do moço de jeito afeminado que sempre se sentava perto da samambaia que, por coincidência, era perto de seu balcão, mas a religião de sua mãe não gostava desse moço, nem ele, aliás! - ou talvez...
Ninguém parecia assistir ao “Orcatacular Show da Orca Celeste” - quem denominou seu show fora ela mesma. - A Orca Celeste começava a se irritar, pois estava prestes a fazer o seu Duplo Orcwist Carpado e sua platéia estava desatenta.
Havia um moço. - Sim, sentado perto de uma samambaia, numa lanchonete. - Ele gostava muito de samambaias e garotos, mas gostava mais de garotos. Gostava especificamente do garçom daquela lanchonete e de como ele ficava bem no uniforme preto e branco. Ele também evitava o cacoete dos pés, mas não gostava de croissant, pois ficava enjoado rápido. Aliás, por enjoar rápido, ele também não gostava de rosa, nem de golfinhos. - Daqui a pouco talvez nem de garotos e samambaias gostasse mais.
Celeste rodopiava e rebolava. Acompanhava o ritmo da canção dos passarinhos - Ela teve um affair com um, mas é segredo. - A platéia continuava sendo um problema para a coitada, toda cheia de graça e deslumbrante, e aqueles humanos tolos não percebiam como ela era extremamente interessante e atípica.
Num clic mental, o moço sentado perto da samambaia verificou que a blusa do uniforme do garçom marcava seus mamilos e que o garçom tinha uma mania estranha de sempre carregar um terço no bolso da calça. - Aquilo já estava enjoado. - E a samambaia estava verde demais, ou morta demais, ou apenas normal demais. - Aquela samambaia estava o enjoando. O clima da lanchonete também enjoava. - Deve ser por causa do cheiro dos croissants.
O garçom viu o rapaz de jeito afeminado levantar-se atipicamente e ir em direção à saída. - Ele temeu. - E se fosse a última vez que ele viria o amor da sua vida? Digo... - Não digo nada, ele era sim o amor de sua vida. - O medo consumia o garçom, tragava-o vivo.
Porém, num clic, o medo se desfez. Precisava alcançá-lo, dizer o quanto amava quando ele usava aqueles shorts azuis com uma regatinha branca e que não se importava com o que sua mãe iria pensar, por que ele já estava grande o suficiente pra não precisar dela para amar alguém.
A garota que comia o croissant ficou perplexa ao perceber que o garçom se aproximava. Seu coração batia mais rápido. - Ela precisava evitar isso. - Ele tinha um cabelo castanho bonito. - Desejava que seu marido, quando casasse, tivesse o cabelo parecido com o dele. - Ela tremia, ele estava cada vez mais perto de sua mesa! - Olha que ela se sentou na mesa mais afastada do balcão, para evitá-lo.
De repente, um clic. E se ela parasse de olhar para o croissant? Se ela olhasse para o garçom? Só por olhar... Sua família nem precisava saber disso... Ela estava cansada de evitar aquilo. E todas as outras coisas também, mas principalmente aquilo.
Aquele menino na rua percebeu a distração da moça e, num clic, correu para pegar seu desjejum.
Celeste estava deprimida. Havia acabado de fazer movimentos leves e ao mesmo tempo cheios de expressividade no ar e ninguém, absolutamente ninguém, a notou. - Exceto o passarinho, claro - Estava na hora de seu último ato. Olhou para baixo, era a última chance daqueles humanos para notarem-na. Três pontinhos se movimentavam e um havia se levantado, estariam olhando para Celeste? - A orca pegou seu binóculo. - NÃO, NÃO ESTAVAM. - Ela ofegava de ódio, sentia o ódio por todas as partes do seu corpo.
Num clic, ela apertou o gatilho.
Lá vêm vocês de novo! Eu já disse que ela não é assassina.
Ela é, no máximo, suicida.

A gravidade resolveu agir naquela orca, por maldade, por chateação, ou por que um quase-golfinho morto no céu não é tão bonito quanto um vivo.
A orca caía. Não mais celeste, o furo da bala afirmava que seu lugar era no chão -  mais precisamente abaixo do nível do mar, perto de onde dois rapazes, uma moça, um menino e um croissant estavam - perto não, em cima mesmo.
O sol continuava brilhando forte e o passarinho namorava outra passarinha que ele encontrou numa fonte, não muito longe dali.