Quantas lágrimas já derramei? Não existe o senso de contar isso. Mas posso dizer que mergulhei dentro dos meus olhos quando assisti esse espetáculo. Deixei a poesia subir em minha mente e não assisti aquele espetáculo apenas com os olhos, eu enquanto contemplava, sentia muito. Não sei se era o êxtase de ver uma obra do “êxodo sudestino”, mas sei que mesmo deslumbrado da plateia superior do cineteatro São Luís, consegui reunir algumas críticas. Críticas que eu prefiro chamar de apontamentos, a garota aponta sabendo que pode crescer uma verruga dali. Da mesma forma que indicar seu dedo à uma estrela.
Eu lembro que senti como se seres primordiais entrassem em cena.
Vejo uma essência primordial, como uma sopa, os dançarinos entram de forma animalesca, imprimindo em mim uma sensação de tempo histórico longínquo, e em seguida eles dançavam de uma forma coordenada e quase matemática, sem perder esse caráter originário de pertencimento humano à natureza.
Como dito, meu lugar da platéia não fora nada privilegiado e sem meus óculos eu fico refém da leve miopia e alto astigmatismo, assim reitero com veemência para os leitores dessa lembrança que existem vários momentos embaçados e embargados de lágrimas de emoção por ver uma obra em que o corpo consegue fluir entre indivíduo e coletivo e sem precisar que as bocas falem, o texto da cena emerge substancialmente. Entretanto, o espetáculo também trabalhou a voz, que em alto-falantes, de um ato para outro, recitava um poema que tinha ligação direta com a história contada através dos corpos, o que particularmente em outra época eu poderia achar desnecessário, mas naquele momento digamos que foi um facilitador da experiência, mesmo que o áudio não estivesse com uma qualidade tão alta quanto a da performance corporal, ouvir o texto foi importante.
Em dado momento lembro que parecia acontecer uma escolha dentro daquele grupo de dançarinos, alguém precisa ir, mas para onde? Fazer o que? A dança me conduziu para perguntar o que viria a seguir, pois eu nunca havia visto a obra da qual era inspirada, então estava lá realmente descobrindo a história pela primeira vez e pela visão daquela coreógrafa específica que na verdade eu tinha ouvido falar pela primeira vez apenas 1 mês antes daquela apresentação.
A Companhia utilizou-se de objetos cênicos de forma habilidosa, introduzindo e retirando de cena sem abandonar ou persistir repetidamente no texto, em algumas circunstâncias parecia que corpo e objeto se fundiam, formando imagens que remetiam fortemente à natureza e suas poéticas. Em um momento eu parecia estar vendo um bicho-pau, com seus membros longos e linhas fortes, em outro momento uma rede descia do teto envolvendo um corpo como quando uma aranha envolve uma presa em sua teia após aprisioná-la em sua armadilha, ou como quando uma aranha cria uma ooteca para proteger sua ninhada? Provavelmente a história não tinha muita coisa a ver com a reprodução dos aracnídeos, pois depois entendi que aquele indivíduo havia sido selecionado para um sacrifício a fim de que a natureza ou o Ser Superior não se rebelasse contra aquela comunidade, nesse ponto eu quis identificar uma referência a história de Prometeu, cujo roubo do fogo enfureceu Zeus e causou um caos na humanidade nunca antes visto, na minha perspectiva talvez o indivíduo escolhido tivesse um motivo mais profundo para estar naquela posição honrosa, mas de martírio.
Ao fim do espetáculo, senti-me privilegiado de ter assistido a algo tão grandioso e de produção elevada, a sensação foi de completo êxtase, por um lado saí levemente confuso sobre a narrativa do que eu tinha presenciado, por outro lado não é necessário que tudo seja compreendido de forma racional quando se assiste um espetáculo de dança, o sentir que transbordou em mim naquele dia foi a história principal para mim. Isso e as idosas na saída comentando uma para outra:
- Eu não entendi nada.
- Eu também não.