segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Perfurações Internas

Mais uma vez imersa nessa doença sem cura. Atrasando as respostas certas, apegada ao que vai se dissipar. Eu minto e desminto ideias sobre isso para mim, descarto e compro as possibilidades que possuem destino certo, sem saber a que ponto chegarei. É que minha voz falha quando tento confessar coisas, as palavras vão rasgando do estômago até a boca, vomito sangue e não sai o que eu quero. Só percebo que estou vivíssima e que meu coração ainda bate quando ele faz como se fosse pular para fora do corpo, então, me calo. Mas as palavras são agulhas correndo pelas minhas veias, remover deve doer menos.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Overkill

Eu estou lentamente sendo estrangulada pelos meus sentimentos. É um desastre. Eu tento pintar minhas unhas, mas minhas mãos tremem. É difícil respirar. A tesoura corta meus dedos. Eu não consigo me limpar. Sangra e sangra. Eu estou sangrando há três dias. São cortes profundos no peito que latejam e transbordam o liquido viscoso e sujo que eu deixo circular dentro de mim. Eu sou humana, que nojento. Eu tenho nojo de mim mesma. O mundo está desmoronando nas minhas costas e eu tento com tanto esforço segurar cada pedaço do que poderia deixar todo mundo feliz. Todo mundo deveria estar feliz. Eu pago as contas em dia, eu não choro na frente de ninguém, eu não digo que estou sentindo dor, eu me desestimulo todos os dias. Eu odeio o que eu faço com tanto desgosto. Todo mundo deveria estar feliz. Eu estou sustentando coisas insustentáveis, eu sou incrível, vejam, todos olhem para mim, eu quero que vocês agradeçam a minha presença hoje, eu quero luzes em mim, eu quero que vocês olhem para essas unhas pintadas, eu quero que vocês olhem minha maquiagem, meu delineador! Eu estou feliz, vejam! Eu pinto meu cabelo, eu danço, eu canto mal, eu me detesto, eu uso roupas bonitas. Todo dia eu escolho o que eu vou vestir. Podem olhar para mim, vocês verão falhas. Eu sou humana. Um grande pedaço de lixo ambulante. Ninguém vai me agradecer por eu fazer minhas obrigações. Eu estou tão presa na minha própria situação. Eu queria fugir, mas fugir é desistir. Meu deus, eu queria tanto desistir. É tão ruim acordar. Eu sou uma pobre coitada, que tristezinha eu sou, meu deus, olha toda essa atenção que eu quero chamar, tão pobrezinha, tão estúpida. Eu sou tão ridícula. Eu menti, eu não consigo mais fazer nada. Eu apenas fico sentada, olho para tudo e fico atônita. Eu estou em pânico. É uma sala branca sem porta nem janela. Tudo o que eu vejo são meus orgãos internos pulsando fora de mim. Cada um apodrece lentamente. E dói, dói muito, é uma dor tão grande. Ela não é física, mas dói tudo. Tudo dói.
Eu passo muito tempo mantendo minha mente longe da realidade. A realidade é um monstro. Ela é o meu bichinho de estimação que me odeia. A realidade se alimenta de mim. E eu (por que eu sou bastante estúpida) insisto em me alimentar dos meus sonhos. E (droga) eu estou morrendo de fome. Existe sempre alguém pra me lembrar que nada do que eu consegui foi por que eu mereci. Existe sempre alguém que vai me dizer que meus sonhos são egoístas demais. Eu quero uma casa. Sim, eu quero. Quero ficar só. Tão só de uma maneira que eu nunca fiquei só. Eu amo tanto ficar só. Eu odeio tanto ter que ficar só pra ser menos miserável. Eu me lembro de um dia que eu estava tão longe de casa e tão feliz. Mas eu estava tão longe de casa e tinha tanta gente ao meu redor que eu fiquei aterrorizada. Eu só queria ficar só, muito só. E era constrangedor me ver nessa situação. Eu estava triste, mas eu estava tão feliz. Eu só queria um tempo em que ninguém me visse, queria chorar desesperadamente por nenhuma razão. Eu queria chorar desesperadamente por que eu estava cercada de pessoas que eu observava e que me observavam. Foram alguns dias estranhos que passei. Todo dia é difícil, alguns são menos.
Eu continuo sentada olhando para os lados. Não existe lugar para ir? É isso? Mas eu sou tão forte, porra. Eu vou dar um soco na parede e vou sair correndo.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Isabela

Ah... que criatura cruel é Bela. Pior que Capitolina de Dom Casmurro, Isabela tem olhos castanhos. Não sei se você me entende, mas, das cores que podem existir em olhos, a castanha é a pior. Fitá-los é o mesmo que tentar enxergar o final de um poço de profundeza imensurável, de conteúdo indecifrável. Não há nada pior que cair de cabeça naquele olhar e acordar atordoada, sem enxergar nada com clareza. O sorriso dela, de tão maroto e brilhante, confunde minha cabeça. E se não se chamasse Isabela, seria Pandora, pois posso não saber o significado dos olhares que ela derrama em mim, mas sei que estão cheios de curiosidade. O sorriso dela denuncia o quanto ela gosta de me conhecer… Mas será mesmo? Os olhos maduros e o sorriso de criança maltratam minha certeza sobre as coisas. O que sei mesmo é o quanto eu gosto dela. O quanto queria que os olhares significassem desejo, e os sorrisos significassem “vem cá”. Mas, quem sabe - quem sabe? - ela só seja cruel. E como uma cigana mesmo, me lança olhares dissimulados, só para me provocar, só pra me atiçar e me prender, nada além disso. Que no fim, para ela, só ser desejada já é suficiente. Ah, não faça isso, Bela… Minha pobre alma pede num grito. Felizmente, - infelizmente também -, grito de alma ninguém escuta. Que medo eu tenho de você me descobrir, mesmo tendo quase certeza que descoberta estou. Se não soubesses de mim, não me olharias assim… Tenho quase certeza disso, se tu fores realmente cruel.

Mas, ah... Bela… Se teu desejo por mim fosse real, fosse concreto, fosse além de curiosidade, meu coração encontraria a felicidade plena. Eu dançaria na escuridão dos teus olhos, como se estivesse num salão cheio de luzes coloridas. Eu beijaria tua cor, beijaria tua alma, beijaria teu sabor e beijaria teu cheiro. Bela, você não seria mais tão cruel, te juro. Eu te chamaria até de santa, se você me deixasse acender qualquer faísca, que me permitisse entender, ver, contemplar por pelo menos um segundo, o que teus olhos castanhos escondem. Porque, para falar a verdade, eu não consigo acreditar em crueldade numa criatura de sorriso tão doce.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Pro dia dos namorados não passar em branco

Parece que passou menos de um mês, você me encontrou na sexta. Olhou meus olhos pequenos e sorriu, tocou minha mão e me beijou. Me amou pela primeira vez na sua cama e me envolveu com teus olhinhos sonolentos. Não foi tão errado quanto eu insisti que era. De repente, já comíamos pastel juntos e, entre mordidas e beijos, você me sorria mais. Não parecíamos ir a lugar nenhum, caminhávamos meio distraídos, dormindo abraçados num sofá sujo, de vez em quando, sendo devorados por muriçocas e ouvindo - e cantando - músicas, que nenhum casal ouviria - e cantaria - junto.
Casal, éramos um casal. Quando percebemos, tínhamos caminhado quase sete mil e novecentos quilômetros de onde estávamos. Quando eu dei por mim, já conhecia seus pais, seus tios, seus sobrinhos e seus amigos. E numa quarta, no mesmo sofá sujo, você me chamou, oficialmente, pra te acompanhar nesse caminho que a gente já atravessava durante esse tempo (que parece de ontem pra hoje). E foi como se você me oferecesse mais uma mordida do chocolate que eu já estava comendo. Foi incrivelmente feliz. Foi como se você oferecesse, além da mordida, um brownie, um biscoito e uma bola de sorvete. E agora, definitivamente, somos um casal. Afinal, comemos sanduíches juntos, e não só sanduíches, tomamos sucos de caixa também, e, às vezes, pra me fazer um pouquinho mais feliz, comemos coisas que fazem mal à sua gastrite, mas não muito, por que eu me preocupo contigo. Essas coisas que casais fazem, nós fazemos muito bem.
Nós fazemos tão bem, que eu me permiti por ti. Deixei que você me visse encolhida, chorando pequenos espinhos. Aceitei, com receio, teu ombro. Foi lá, então, que encontrei a calma. Deixei que você me visse expandida, transbordando alegria. Vi o sorriso mais lindo saindo dos teus olhos e decidi ser feliz mais vezes para vê-lo com mais frequência.
E é isso, você é meu casalzinho. Meu par. Somos a fumaça e o vapor. Somos uma nuvenzinha flutuando no alto da sala. Olhando pra todo mundo com cara de sono e, às vezes, dormindo num sofá sujo.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Lua

Ela estava lá, deitada no cobertor negro.
Na primeira vez, sentada, oblíqua,
Já não tão jovem, indecente, de meia-luz.
Diminuiria até fingir sumir.
Adormecida no ventre do céu,
Despertava de pouquinho, tenra.
No primeiro quarto, acordou.
Debruçada, abençoava os amantes.
Seu brilho frio lambia as peles, arrepio.

E agora ela estava lá.
Deitada, corpo nu,
Completa, cheia de tudo.
Admirando-a, acabei enfeitiçada.
Tomei banho naquela luz,
Vi-me imersa.

E agora, cá estou
Meio boba, meia-noite
Enamorada da Lua.

Tarde de quinta

Ele abraçou meu corpo cansado,
Beijou meus lábios secos
Passou a mão em meus cabelos assanhados.
Sorriu de leve
Repousou seus olhos nos meus
Deu um pouco do tempo dele
E eu dei um pouco do meu.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Fumaça e vapor

Eram duas nuvens. Uma era fumaça, outra era vapor. A primeira vinha dum cigarro mal fumado, a segunda duma chaleira de porcelana. Encontraram-se casualmente, numa sexta bagunçada. A princípio não sabiam bem o que fazer, o chá e o tabaco também ainda estavam confusos, sem entender o que acontecia.
Numa dança leve, descontraída, depois de alguns dias, se comunicavam sem som. Aos poucos e imperceptivelmente se misturavam. O doce aroma do vapor de chá, simples, fresco, vívido e novo, mas com ares de antiquíssimo. A amarga baforada de fumaça, poluída, seca, vivida, angustiadamente triste, mas rebelde, dançante e inconstante. Os dois se viram iguais. Fluidos, aéreos, livres. Apenas se observavam, e se entrelaçavam, sem saber que dali se tornariam uma só nuvem amena, que permaneceria no alto da sala, suavemente alheia dos outros.