terça-feira, 22 de setembro de 2026

A Sagração

 Quantas lágrimas já derramei? Não existe o senso de contar isso. Mas posso dizer que mergulhei dentro dos meus olhos quando assisti esse espetáculo. Deixei a poesia subir em minha mente e não assisti aquele espetáculo apenas com os olhos, eu enquanto contemplava, sentia muito. Não sei se era o êxtase de ver uma obra do “êxodo sudestino”, mas sei que mesmo deslumbrado da plateia superior do cineteatro São Luís, consegui reunir algumas críticas. Críticas que eu prefiro chamar de apontamentos, a garota aponta sabendo que pode crescer uma verruga dali. Da mesma forma que indicar seu dedo à uma estrela. 

Eu lembro que senti como se seres primordiais entrassem em cena. 

Vejo uma essência primordial, como uma sopa, os dançarinos entram de forma animalesca, imprimindo em mim uma sensação de tempo histórico longínquo, e em seguida eles dançavam de uma forma coordenada e quase matemática, sem perder esse caráter originário de pertencimento humano à natureza. 

Como dito, meu lugar da platéia não fora nada privilegiado e sem meus óculos eu fico refém da leve miopia e alto astigmatismo, assim reitero com veemência para os leitores dessa lembrança que existem vários momentos embaçados e embargados de lágrimas de emoção por ver uma obra em que o corpo consegue fluir entre indivíduo e coletivo e sem precisar que as bocas falem, o texto da cena emerge substancialmente. Entretanto, o espetáculo também trabalhou a voz, que em alto-falantes, de um ato para outro, recitava um poema que tinha ligação direta com a história contada através dos corpos, o que particularmente em outra época eu poderia achar desnecessário, mas naquele momento digamos que foi um facilitador da experiência, mesmo que o áudio não estivesse com uma qualidade tão alta quanto a da performance corporal, ouvir o texto foi importante.

Em dado momento lembro que parecia acontecer uma escolha dentro daquele grupo de dançarinos, alguém precisa ir, mas para onde? Fazer o que? A dança me conduziu para perguntar o que viria a seguir, pois eu nunca havia visto a obra da qual era inspirada, então estava lá realmente descobrindo a história pela primeira vez e pela visão daquela coreógrafa específica que na verdade eu tinha ouvido falar pela primeira vez apenas 1 mês antes daquela apresentação.

A Companhia utilizou-se de objetos cênicos de forma habilidosa, introduzindo e retirando de cena sem abandonar ou persistir repetidamente no texto, em algumas circunstâncias parecia que corpo e objeto se fundiam, formando imagens que remetiam fortemente à natureza e suas poéticas. Em um momento eu parecia estar vendo um bicho-pau, com seus membros longos e linhas fortes, em outro momento uma rede descia do teto envolvendo um corpo como quando uma aranha envolve uma presa em sua teia após aprisioná-la em sua armadilha, ou como quando uma aranha cria uma ooteca para proteger sua ninhada? Provavelmente a história não tinha muita coisa a ver com a reprodução dos aracnídeos, pois depois entendi que aquele indivíduo havia sido selecionado para um sacrifício a fim de que a natureza ou o Ser Superior não se rebelasse contra aquela comunidade, nesse ponto eu quis identificar uma referência a história de Prometeu, cujo roubo do fogo enfureceu Zeus e causou um caos na humanidade nunca antes visto, na minha perspectiva talvez o indivíduo escolhido tivesse um motivo mais profundo para estar naquela posição honrosa, mas de martírio.

Ao fim do espetáculo, senti-me privilegiado de ter assistido a algo tão grandioso e de produção elevada, a sensação foi de completo êxtase, por um lado saí levemente confuso sobre a narrativa do que eu tinha presenciado, por outro lado não é necessário que tudo seja compreendido de forma racional quando se assiste um espetáculo de dança, o sentir que transbordou em mim naquele dia foi a história principal para mim. Isso e as idosas na saída comentando uma para outra:

- Eu não entendi nada.

- Eu também não.


terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Quase pra meia noite eu te conto esse segredo

 Desligarei as luzes, acenderei um cigarro, abrirei a geladeira e a luz fria vai denunciar minha face quente das lágrimas que caem, do nariz que escorre, do rubro ardente de raiva, frustração, medo e cativo me manterei. Pegarei uma cerveja - já será a décima - e sentirei com todas as forças a solidão com seu ar lânguido, mas peçonhento.

Comerei o resto do que era pra ser de amanhã, com a certeza que amanhã sentirei fome e não comerei, pois devorarei tudo nesse hoje numa ânsia de sentir-me cheio de algo e esquecerei que o futuro existe. Completarei o estômago, destruirei o fígado - ou qualquer coisa assim talvez. Não seria cômico se por ventura eu buscasse no escuro - quando a porta da geladeira já estivesse fechada - por uma faca afiada a fim de cortar os pulsos e encontrasse apenas facas desamoladas e sem serra? Eu tentaria da primeira vez e seria uma faca de passar manteiga, tentaria uma segunda vez e encontraria uma faca igual e então faria um desafio a mim mesme: Se a terceira fosse outra assim eu desistiria da ideia… E assim seria. Deitaria na rede um pouco frustrado e um pouco agradecido que o destino não quis me ajudar nesses atos irracionais e coçaria os pulsos com muita força apenas pra me lembrar que estou vivo e sinto dor.

Mas se eu voltar ao planejamento, eu abrirei a cerveja e acenderei outro cigarro, pois aquele já teria virado uma bituca afogada no cinzeiro úmido.

Sentarei no sofá e chorarei desconsolade, sendo observado pelos olhos estáticos de cada estatueta cristã naquele altar residencial. Elas não me dirão nada, nem moverão um trisco de suas faces levemente deformadas de trabalho artesanal. Afinal, são apenas suvenires da empresa que mais lucra com mentiras, apenas simbolismos de coisas que perderam o significado com o passar de 2023 anos, que em poucos minutos se tornarão 2024 anos.

Meu pulmão cansado de tantos cigarros, tentará alertar que não aguenta mais, mas eu acenderei outro. E escreverei votos de prosperidade e saúde aos outros, desejando quase nada de bom a mim em segredo.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Perfurações Internas

Mais uma vez imersa nessa doença sem cura. Atrasando as respostas certas, apegada ao que vai se dissipar. Eu minto e desminto ideias sobre isso para mim, descarto e compro as possibilidades que possuem destino certo, sem saber a que ponto chegarei. É que minha voz falha quando tento confessar coisas, as palavras vão rasgando do estômago até a boca, vomito sangue e não sai o que eu quero. Só percebo que estou vivíssima e que meu coração ainda bate quando ele faz como se fosse pular para fora do corpo, então, me calo. Mas as palavras são agulhas correndo pelas minhas veias, remover deve doer menos.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Overkill

Eu estou lentamente sendo estrangulada pelos meus sentimentos. É um desastre. Eu tento pintar minhas unhas, mas minhas mãos tremem. É difícil respirar. A tesoura corta meus dedos. Eu não consigo me limpar. Sangra e sangra. Eu estou sangrando há três dias. São cortes profundos no peito que latejam e transbordam o liquido viscoso e sujo que eu deixo circular dentro de mim. Eu sou humana, que nojento. Eu tenho nojo de mim mesma. O mundo está desmoronando nas minhas costas e eu tento com tanto esforço segurar cada pedaço do que poderia deixar todo mundo feliz. Todo mundo deveria estar feliz. Eu pago as contas em dia, eu não choro na frente de ninguém, eu não digo que estou sentindo dor, eu me desestimulo todos os dias. Eu odeio o que eu faço com tanto desgosto. Todo mundo deveria estar feliz. Eu estou sustentando coisas insustentáveis, eu sou incrível, vejam, todos olhem para mim, eu quero que vocês agradeçam a minha presença hoje, eu quero luzes em mim, eu quero que vocês olhem para essas unhas pintadas, eu quero que vocês olhem minha maquiagem, meu delineador! Eu estou feliz, vejam! Eu pinto meu cabelo, eu danço, eu canto mal, eu me detesto, eu uso roupas bonitas. Todo dia eu escolho o que eu vou vestir. Podem olhar para mim, vocês verão falhas. Eu sou humana. Um grande pedaço de lixo ambulante. Ninguém vai me agradecer por eu fazer minhas obrigações. Eu estou tão presa na minha própria situação. Eu queria fugir, mas fugir é desistir. Meu deus, eu queria tanto desistir. É tão ruim acordar. Eu sou uma pobre coitada, que tristezinha eu sou, meu deus, olha toda essa atenção que eu quero chamar, tão pobrezinha, tão estúpida. Eu sou tão ridícula. Eu menti, eu não consigo mais fazer nada. Eu apenas fico sentada, olho para tudo e fico atônita. Eu estou em pânico. É uma sala branca sem porta nem janela. Tudo o que eu vejo são meus orgãos internos pulsando fora de mim. Cada um apodrece lentamente. E dói, dói muito, é uma dor tão grande. Ela não é física, mas dói tudo. Tudo dói.
Eu passo muito tempo mantendo minha mente longe da realidade. A realidade é um monstro. Ela é o meu bichinho de estimação que me odeia. A realidade se alimenta de mim. E eu (por que eu sou bastante estúpida) insisto em me alimentar dos meus sonhos. E (droga) eu estou morrendo de fome. Existe sempre alguém pra me lembrar que nada do que eu consegui foi por que eu mereci. Existe sempre alguém que vai me dizer que meus sonhos são egoístas demais. Eu quero uma casa. Sim, eu quero. Quero ficar só. Tão só de uma maneira que eu nunca fiquei só. Eu amo tanto ficar só. Eu odeio tanto ter que ficar só pra ser menos miserável. Eu me lembro de um dia que eu estava tão longe de casa e tão feliz. Mas eu estava tão longe de casa e tinha tanta gente ao meu redor que eu fiquei aterrorizada. Eu só queria ficar só, muito só. E era constrangedor me ver nessa situação. Eu estava triste, mas eu estava tão feliz. Eu só queria um tempo em que ninguém me visse, queria chorar desesperadamente por nenhuma razão. Eu queria chorar desesperadamente por que eu estava cercada de pessoas que eu observava e que me observavam. Foram alguns dias estranhos que passei. Todo dia é difícil, alguns são menos.
Eu continuo sentada olhando para os lados. Não existe lugar para ir? É isso? Mas eu sou tão forte, porra. Eu vou dar um soco na parede e vou sair correndo.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Isabela

Ah... que criatura cruel é Bela. Pior que Capitolina de Dom Casmurro, Isabela tem olhos castanhos. Não sei se você me entende, mas, das cores que podem existir em olhos, a castanha é a pior. Fitá-los é o mesmo que tentar enxergar o final de um poço de profundeza imensurável, de conteúdo indecifrável. Não há nada pior que cair de cabeça naquele olhar e acordar atordoada, sem enxergar nada com clareza. O sorriso dela, de tão maroto e brilhante, confunde minha cabeça. E se não se chamasse Isabela, seria Pandora, pois posso não saber o significado dos olhares que ela derrama em mim, mas sei que estão cheios de curiosidade. O sorriso dela denuncia o quanto ela gosta de me conhecer… Mas será mesmo? Os olhos maduros e o sorriso de criança maltratam minha certeza sobre as coisas. O que sei mesmo é o quanto eu gosto dela. O quanto queria que os olhares significassem desejo, e os sorrisos significassem “vem cá”. Mas, quem sabe - quem sabe? - ela só seja cruel. E como uma cigana mesmo, me lança olhares dissimulados, só para me provocar, só pra me atiçar e me prender, nada além disso. Que no fim, para ela, só ser desejada já é suficiente. Ah, não faça isso, Bela… Minha pobre alma pede num grito. Felizmente, - infelizmente também -, grito de alma ninguém escuta. Que medo eu tenho de você me descobrir, mesmo tendo quase certeza que descoberta estou. Se não soubesses de mim, não me olharias assim… Tenho quase certeza disso, se tu fores realmente cruel.

Mas, ah... Bela… Se teu desejo por mim fosse real, fosse concreto, fosse além de curiosidade, meu coração encontraria a felicidade plena. Eu dançaria na escuridão dos teus olhos, como se estivesse num salão cheio de luzes coloridas. Eu beijaria tua cor, beijaria tua alma, beijaria teu sabor e beijaria teu cheiro. Bela, você não seria mais tão cruel, te juro. Eu te chamaria até de santa, se você me deixasse acender qualquer faísca, que me permitisse entender, ver, contemplar por pelo menos um segundo, o que teus olhos castanhos escondem. Porque, para falar a verdade, eu não consigo acreditar em crueldade numa criatura de sorriso tão doce.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Pro dia dos namorados não passar em branco

Parece que passou menos de um mês, você me encontrou na sexta. Olhou meus olhos pequenos e sorriu, tocou minha mão e me beijou. Me amou pela primeira vez na sua cama e me envolveu com teus olhinhos sonolentos. Não foi tão errado quanto eu insisti que era. De repente, já comíamos pastel juntos e, entre mordidas e beijos, você me sorria mais. Não parecíamos ir a lugar nenhum, caminhávamos meio distraídos, dormindo abraçados num sofá sujo, de vez em quando, sendo devorados por muriçocas e ouvindo - e cantando - músicas, que nenhum casal ouviria - e cantaria - junto.
Casal, éramos um casal. Quando percebemos, tínhamos caminhado quase sete mil e novecentos quilômetros de onde estávamos. Quando eu dei por mim, já conhecia seus pais, seus tios, seus sobrinhos e seus amigos. E numa quarta, no mesmo sofá sujo, você me chamou, oficialmente, pra te acompanhar nesse caminho que a gente já atravessava durante esse tempo (que parece de ontem pra hoje). E foi como se você me oferecesse mais uma mordida do chocolate que eu já estava comendo. Foi incrivelmente feliz. Foi como se você oferecesse, além da mordida, um brownie, um biscoito e uma bola de sorvete. E agora, definitivamente, somos um casal. Afinal, comemos sanduíches juntos, e não só sanduíches, tomamos sucos de caixa também, e, às vezes, pra me fazer um pouquinho mais feliz, comemos coisas que fazem mal à sua gastrite, mas não muito, por que eu me preocupo contigo. Essas coisas que casais fazem, nós fazemos muito bem.
Nós fazemos tão bem, que eu me permiti por ti. Deixei que você me visse encolhida, chorando pequenos espinhos. Aceitei, com receio, teu ombro. Foi lá, então, que encontrei a calma. Deixei que você me visse expandida, transbordando alegria. Vi o sorriso mais lindo saindo dos teus olhos e decidi ser feliz mais vezes para vê-lo com mais frequência.
E é isso, você é meu casalzinho. Meu par. Somos a fumaça e o vapor. Somos uma nuvenzinha flutuando no alto da sala. Olhando pra todo mundo com cara de sono e, às vezes, dormindo num sofá sujo.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Lua

Ela estava lá, deitada no cobertor negro.
Na primeira vez, sentada, oblíqua,
Já não tão jovem, indecente, de meia-luz.
Diminuiria até fingir sumir.
Adormecida no ventre do céu,
Despertava de pouquinho, tenra.
No primeiro quarto, acordou.
Debruçada, abençoava os amantes.
Seu brilho frio lambia as peles, arrepio.

E agora ela estava lá.
Deitada, corpo nu,
Completa, cheia de tudo.
Admirando-a, acabei enfeitiçada.
Tomei banho naquela luz,
Vi-me imersa.

E agora, cá estou
Meio boba, meia-noite
Enamorada da Lua.