quinta-feira, 30 de maio de 2013

A Equilibrista

Ela se apressava, precisava recolher todos os pedaços antes que alguém notasse. Estava toda quebrada, mas precisava se recompor, passar um batom, um blush, dizer que está tudo bem, que não havia passado a noite chorando.
Eu não passei a noite chorando. - ela repetia para si, esperando acreditar na própria mentira. Precisava entrar no personagem, o picadeiro a esperava. De longe ouvia a música começar, as risadas, os gritos de euforia. E havia ainda tantos pedaços no chão.
Ela segurava as partes de si, mas elas caíam mais e mais. Jogou tudo em cima da cama, desapareceu dentro do guarda-roupa. Se eu usar uma roupa grande, ninguém percebe. - pensou. Achou um vestido longo e pomposo. E daí se ela parecia uma louca dentro daquilo? O importante era que o show continuasse, ela não poderia estragar tudo.
Procurou o batom mais chamativo, colocou os cílios postiços, calçou a sapatilha, passou blush, repetiu seu mantra mais algumas vezes.
Guardou seus pedaços em cima da cama, deixou-os enrolados no lençol. Abriu um sorriso, talvez o mais feio que já havia sorrido, ela não se sentia sorrir, mas deixou seus dentes brancos à mostra mesmo assim. Correu para o seu local, seu show seria o próximo.
Enquanto ela desfilava sua beleza e equilibrava-se na corda bamba, debaixo da cama, perdido, algo pulsava. Ela havia esquecido uma parte. Ela havia se esquecido de seu coração.