domingo, 26 de maio de 2013

Celeste

Era um dia ensolarado. Bastante ensolarado, de fato. Era aquele típico dia em que todo mundo não quer sair de casa, mas precisa. Uma típica segunda-feira de sol.
Havia esse garoto na rua, seu nome talvez rimasse com pão, algodão-doce ou pé-de-moleque, mas infelizmente seu nome não importa, por que para a maioria das pessoas ele é sem nome. Ele talvez brincasse no asfalto quente, ou descansasse, ou planejasse roubar o croissant que encontrava-se em cima de uma mesinha a não mais de 2 metros de distância dele. Ou talvez só observasse o nada atentamente, mesmo.
Nada além do típico.
Ah, claro. Tirando aquela - talvez não-típica, mas não dou certeza, afinal, também sou um sem nome - baleia no céu.
Ops, perdoem-me o erro, - não esqueçam que eu não tenho nome, esses errinhos sempre acontecem, bem típico. - não era realmente uma baleia... Estava mais para um golfinho.

- Mas orcas são baleias! Baleias-assasinas! - Vocês dirão.
Estúpidos! Burros! IGNORANTES!
“A orca (Orcinus orca), é o membro de maior porte da família dos golfinhos (Delphinidae, ordem dos cetáceos) e um superpredador versátil, que inclui na sua dieta presas como peixes, moluscos, aves, tartarugas, focas, tubarões e animais de tamanho maior quando caçam em grupo, como por exemplo baleias.A designação "baleia-assassina" não é a mais correcta por ser uma tradução directa do inglês "killer whale", e pelo facto de o animal não ser uma baleia.”
Até nosso amigo Wikialgumacoisa sabe disso.

Havia uma moça sentada numa lanchonete também. Ela comia um croissant delicioso e evitava olhar à sua esquerda, como geralmente fazia - onde coincidentemente havia um garoto sentado na calçada. - Ela também evitava olhar o garçom, pois - obviamente - ele queria ficar com ela e ele - evidentemente - não era bom o suficiente para ela. Evitava também balançar o pé repetidamente de um lado para o outro, pois sua mãe dizia que tal cacoete era coisa de gente velha - coisa que ela não queria ser, de maneira alguma. - Assim como evitava olhar o céu. Só por evitar mesmo.
O que é mesmo uma pena, estava perdendo um grande show. A orca dançava no ar como se nadasse no mar, ela sorria. - Sei que orcas não sorriem, mas sejam gentis, esta orca com certeza estava feliz. - Até perceber que ninguém a havia percebido.
Havia um rapaz, ainda, atrás de um balcão numa lanchonete. Ele vestia um bonito uniforme preto e branco, ele adorava essa combinação. Uniformes de garçom estavam in neste verão. Ele gostava muito de rosa, mas não gostava de usar roupas rosas. - Ou talvez só tivesse medo. - Ele também gostava muito de shorts curtos, mas não gostava de usá-los. - Ou talvez não tivesse coragem. - E, além disso, ele gostava do moço de jeito afeminado que sempre se sentava perto da samambaia que, por coincidência, era perto de seu balcão, mas a religião de sua mãe não gostava desse moço, nem ele, aliás! - ou talvez...
Ninguém parecia assistir ao “Orcatacular Show da Orca Celeste” - quem denominou seu show fora ela mesma. - A Orca Celeste começava a se irritar, pois estava prestes a fazer o seu Duplo Orcwist Carpado e sua platéia estava desatenta.
Havia um moço. - Sim, sentado perto de uma samambaia, numa lanchonete. - Ele gostava muito de samambaias e garotos, mas gostava mais de garotos. Gostava especificamente do garçom daquela lanchonete e de como ele ficava bem no uniforme preto e branco. Ele também evitava o cacoete dos pés, mas não gostava de croissant, pois ficava enjoado rápido. Aliás, por enjoar rápido, ele também não gostava de rosa, nem de golfinhos. - Daqui a pouco talvez nem de garotos e samambaias gostasse mais.
Celeste rodopiava e rebolava. Acompanhava o ritmo da canção dos passarinhos - Ela teve um affair com um, mas é segredo. - A platéia continuava sendo um problema para a coitada, toda cheia de graça e deslumbrante, e aqueles humanos tolos não percebiam como ela era extremamente interessante e atípica.
Num clic mental, o moço sentado perto da samambaia verificou que a blusa do uniforme do garçom marcava seus mamilos e que o garçom tinha uma mania estranha de sempre carregar um terço no bolso da calça. - Aquilo já estava enjoado. - E a samambaia estava verde demais, ou morta demais, ou apenas normal demais. - Aquela samambaia estava o enjoando. O clima da lanchonete também enjoava. - Deve ser por causa do cheiro dos croissants.
O garçom viu o rapaz de jeito afeminado levantar-se atipicamente e ir em direção à saída. - Ele temeu. - E se fosse a última vez que ele viria o amor da sua vida? Digo... - Não digo nada, ele era sim o amor de sua vida. - O medo consumia o garçom, tragava-o vivo.
Porém, num clic, o medo se desfez. Precisava alcançá-lo, dizer o quanto amava quando ele usava aqueles shorts azuis com uma regatinha branca e que não se importava com o que sua mãe iria pensar, por que ele já estava grande o suficiente pra não precisar dela para amar alguém.
A garota que comia o croissant ficou perplexa ao perceber que o garçom se aproximava. Seu coração batia mais rápido. - Ela precisava evitar isso. - Ele tinha um cabelo castanho bonito. - Desejava que seu marido, quando casasse, tivesse o cabelo parecido com o dele. - Ela tremia, ele estava cada vez mais perto de sua mesa! - Olha que ela se sentou na mesa mais afastada do balcão, para evitá-lo.
De repente, um clic. E se ela parasse de olhar para o croissant? Se ela olhasse para o garçom? Só por olhar... Sua família nem precisava saber disso... Ela estava cansada de evitar aquilo. E todas as outras coisas também, mas principalmente aquilo.
Aquele menino na rua percebeu a distração da moça e, num clic, correu para pegar seu desjejum.
Celeste estava deprimida. Havia acabado de fazer movimentos leves e ao mesmo tempo cheios de expressividade no ar e ninguém, absolutamente ninguém, a notou. - Exceto o passarinho, claro - Estava na hora de seu último ato. Olhou para baixo, era a última chance daqueles humanos para notarem-na. Três pontinhos se movimentavam e um havia se levantado, estariam olhando para Celeste? - A orca pegou seu binóculo. - NÃO, NÃO ESTAVAM. - Ela ofegava de ódio, sentia o ódio por todas as partes do seu corpo.
Num clic, ela apertou o gatilho.
Lá vêm vocês de novo! Eu já disse que ela não é assassina.
Ela é, no máximo, suicida.

A gravidade resolveu agir naquela orca, por maldade, por chateação, ou por que um quase-golfinho morto no céu não é tão bonito quanto um vivo.
A orca caía. Não mais celeste, o furo da bala afirmava que seu lugar era no chão -  mais precisamente abaixo do nível do mar, perto de onde dois rapazes, uma moça, um menino e um croissant estavam - perto não, em cima mesmo.
O sol continuava brilhando forte e o passarinho namorava outra passarinha que ele encontrou numa fonte, não muito longe dali.