A respiração começou a ficar ofegante, o coração batia cada vez mais rápido, as mãos tremiam. Por que não sangra? Por quê? Ela quer que escorra muito, muito, o mais rápido possível, o mais violento possível, ela quer que rasgue, que corroa, ela quer explodir, de novo, como sempre, ou como nunca, ela quer o pra sempre infinito que todos falam, ela quer aquilo que ela menos tem, ela quer tudo o que ela nada teve, ela quer sentir escorrer tudo, todos, a vida, a morte e o amor, o que é amizade pra ela agora? A navalha parecia entender melhor.
sexta-feira, 21 de junho de 2013
terça-feira, 11 de junho de 2013
Do branco ao vermelho, não veio Rosa.
Rasgou os pulsos
Ateou fogo às memórias
Afogou as cartas
Mutilou a alma
Desnuda, achou-se feia
O medo escorria do seu sangue
Por seu corpo alvo.
O alvo era o corpo,
Atingiu o coração
Junto com os pulsos,
as memórias,
as cartas,
E, então, a alma.
Achou que seria mais bela assim.
E a brancura imaculada, transformou-se em rubro corrompido.
Alvorecer
No calcanhar da noite,
Amanhecia de quase em quase
Tarde demais ou cedo demais?
Ainda me perguntava
Li no teu corpo todos os teus desejos
Inspirei o teu cheiro e senti tua malícia e
Antes que seja tarde,
Ou agora, pois ainda é cedo
Peço-te mais um beijo.
E do beijo, peço-te um pouco mais
Peço que tua vontade
Norteie-me por cada parte de ti
Anseio tocar-te as vergonhas
Tornar-te-ás minha
Até que tu julgues que não me queres mais
Luar virará Estrela do Dia e os
Instantes que restarão serão para te observar
Amanhecer por completo.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
A Equilibrista
Ela se apressava, precisava recolher todos os pedaços antes que alguém notasse. Estava toda quebrada, mas precisava se recompor, passar um batom, um blush, dizer que está tudo bem, que não havia passado a noite chorando.
Eu não passei a noite chorando. - ela repetia para si, esperando acreditar na própria mentira. Precisava entrar no personagem, o picadeiro a esperava. De longe ouvia a música começar, as risadas, os gritos de euforia. E havia ainda tantos pedaços no chão.
Ela segurava as partes de si, mas elas caíam mais e mais. Jogou tudo em cima da cama, desapareceu dentro do guarda-roupa. Se eu usar uma roupa grande, ninguém percebe. - pensou. Achou um vestido longo e pomposo. E daí se ela parecia uma louca dentro daquilo? O importante era que o show continuasse, ela não poderia estragar tudo.
Procurou o batom mais chamativo, colocou os cílios postiços, calçou a sapatilha, passou blush, repetiu seu mantra mais algumas vezes.
Guardou seus pedaços em cima da cama, deixou-os enrolados no lençol. Abriu um sorriso, talvez o mais feio que já havia sorrido, ela não se sentia sorrir, mas deixou seus dentes brancos à mostra mesmo assim. Correu para o seu local, seu show seria o próximo.
Enquanto ela desfilava sua beleza e equilibrava-se na corda bamba, debaixo da cama, perdido, algo pulsava. Ela havia esquecido uma parte. Ela havia se esquecido de seu coração.
Enquanto ela desfilava sua beleza e equilibrava-se na corda bamba, debaixo da cama, perdido, algo pulsava. Ela havia esquecido uma parte. Ela havia se esquecido de seu coração.
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Riminha boba sem título
Beijo teu pescoço
Que é?
Sussurras sem notar
Quase não te ouço
Quer mais um cafuné?
Deixa eu te acarinhar
Dorme bem, moço
Quando acordar te faço o café
E amor, se precisar.
terça-feira, 28 de maio de 2013
Essência de ti
Esse é o teu cheiro
Aconchego-me nele, como se fosse em ti
Abraço-o forte
Sinto-o perto
Espero dissipar
Mas ele não sai mais de mim
Agarrou minha pele
Embrenhou-se em minhas madeixas
Fez morada no meu coração
Apossou-se dos meus lábios
Fez meus olhos cegos
Meus ouvidos surdos
Meu sexo exclusivo
E virou dono de todos os meus sorrisos.
domingo, 26 de maio de 2013
Celeste
Era um dia ensolarado. Bastante ensolarado, de fato. Era aquele típico dia em que todo mundo não quer sair de casa, mas precisa. Uma típica segunda-feira de sol.
Havia esse garoto na rua, seu nome talvez rimasse com pão, algodão-doce ou pé-de-moleque, mas infelizmente seu nome não importa, por que para a maioria das pessoas ele é sem nome. Ele talvez brincasse no asfalto quente, ou descansasse, ou planejasse roubar o croissant que encontrava-se em cima de uma mesinha a não mais de 2 metros de distância dele. Ou talvez só observasse o nada atentamente, mesmo.
Nada além do típico.
Ah, claro. Tirando aquela - talvez não-típica, mas não dou certeza, afinal, também sou um sem nome - baleia no céu.
Ops, perdoem-me o erro, - não esqueçam que eu não tenho nome, esses errinhos sempre acontecem, bem típico. - não era realmente uma baleia... Estava mais para um golfinho.
- Mas orcas são baleias! Baleias-assasinas! - Vocês dirão.
Estúpidos! Burros! IGNORANTES!
“A orca (Orcinus orca), é o membro de maior porte da família dos golfinhos (Delphinidae, ordem dos cetáceos) e um superpredador versátil, que inclui na sua dieta presas como peixes, moluscos, aves, tartarugas, focas, tubarões e animais de tamanho maior quando caçam em grupo, como por exemplo baleias.A designação "baleia-assassina" não é a mais correcta por ser uma tradução directa do inglês "killer whale", e pelo facto de o animal não ser uma baleia.”
Até nosso amigo Wikialgumacoisa sabe disso.
Havia uma moça sentada numa lanchonete também. Ela comia um croissant delicioso e evitava olhar à sua esquerda, como geralmente fazia - onde coincidentemente havia um garoto sentado na calçada. - Ela também evitava olhar o garçom, pois - obviamente - ele queria ficar com ela e ele - evidentemente - não era bom o suficiente para ela. Evitava também balançar o pé repetidamente de um lado para o outro, pois sua mãe dizia que tal cacoete era coisa de gente velha - coisa que ela não queria ser, de maneira alguma. - Assim como evitava olhar o céu. Só por evitar mesmo.
O que é mesmo uma pena, estava perdendo um grande show. A orca dançava no ar como se nadasse no mar, ela sorria. - Sei que orcas não sorriem, mas sejam gentis, esta orca com certeza estava feliz. - Até perceber que ninguém a havia percebido.
Havia um rapaz, ainda, atrás de um balcão numa lanchonete. Ele vestia um bonito uniforme preto e branco, ele adorava essa combinação. Uniformes de garçom estavam in neste verão. Ele gostava muito de rosa, mas não gostava de usar roupas rosas. - Ou talvez só tivesse medo. - Ele também gostava muito de shorts curtos, mas não gostava de usá-los. - Ou talvez não tivesse coragem. - E, além disso, ele gostava do moço de jeito afeminado que sempre se sentava perto da samambaia que, por coincidência, era perto de seu balcão, mas a religião de sua mãe não gostava desse moço, nem ele, aliás! - ou talvez...
Ninguém parecia assistir ao “Orcatacular Show da Orca Celeste” - quem denominou seu show fora ela mesma. - A Orca Celeste começava a se irritar, pois estava prestes a fazer o seu Duplo Orcwist Carpado e sua platéia estava desatenta.
Havia um moço. - Sim, sentado perto de uma samambaia, numa lanchonete. - Ele gostava muito de samambaias e garotos, mas gostava mais de garotos. Gostava especificamente do garçom daquela lanchonete e de como ele ficava bem no uniforme preto e branco. Ele também evitava o cacoete dos pés, mas não gostava de croissant, pois ficava enjoado rápido. Aliás, por enjoar rápido, ele também não gostava de rosa, nem de golfinhos. - Daqui a pouco talvez nem de garotos e samambaias gostasse mais.
Celeste rodopiava e rebolava. Acompanhava o ritmo da canção dos passarinhos - Ela teve um affair com um, mas é segredo. - A platéia continuava sendo um problema para a coitada, toda cheia de graça e deslumbrante, e aqueles humanos tolos não percebiam como ela era extremamente interessante e atípica.
Num clic mental, o moço sentado perto da samambaia verificou que a blusa do uniforme do garçom marcava seus mamilos e que o garçom tinha uma mania estranha de sempre carregar um terço no bolso da calça. - Aquilo já estava enjoado. - E a samambaia estava verde demais, ou morta demais, ou apenas normal demais. - Aquela samambaia estava o enjoando. O clima da lanchonete também enjoava. - Deve ser por causa do cheiro dos croissants.
O garçom viu o rapaz de jeito afeminado levantar-se atipicamente e ir em direção à saída. - Ele temeu. - E se fosse a última vez que ele viria o amor da sua vida? Digo... - Não digo nada, ele era sim o amor de sua vida. - O medo consumia o garçom, tragava-o vivo.
Porém, num clic, o medo se desfez. Precisava alcançá-lo, dizer o quanto amava quando ele usava aqueles shorts azuis com uma regatinha branca e que não se importava com o que sua mãe iria pensar, por que ele já estava grande o suficiente pra não precisar dela para amar alguém.
A garota que comia o croissant ficou perplexa ao perceber que o garçom se aproximava. Seu coração batia mais rápido. - Ela precisava evitar isso. - Ele tinha um cabelo castanho bonito. - Desejava que seu marido, quando casasse, tivesse o cabelo parecido com o dele. - Ela tremia, ele estava cada vez mais perto de sua mesa! - Olha que ela se sentou na mesa mais afastada do balcão, para evitá-lo.
De repente, um clic. E se ela parasse de olhar para o croissant? Se ela olhasse para o garçom? Só por olhar... Sua família nem precisava saber disso... Ela estava cansada de evitar aquilo. E todas as outras coisas também, mas principalmente aquilo.
Aquele menino na rua percebeu a distração da moça e, num clic, correu para pegar seu desjejum.
Celeste estava deprimida. Havia acabado de fazer movimentos leves e ao mesmo tempo cheios de expressividade no ar e ninguém, absolutamente ninguém, a notou. - Exceto o passarinho, claro - Estava na hora de seu último ato. Olhou para baixo, era a última chance daqueles humanos para notarem-na. Três pontinhos se movimentavam e um havia se levantado, estariam olhando para Celeste? - A orca pegou seu binóculo. - NÃO, NÃO ESTAVAM. - Ela ofegava de ódio, sentia o ódio por todas as partes do seu corpo.
Num clic, ela apertou o gatilho.
Lá vêm vocês de novo! Eu já disse que ela não é assassina.
Ela é, no máximo, suicida.
A gravidade resolveu agir naquela orca, por maldade, por chateação, ou por que um quase-golfinho morto no céu não é tão bonito quanto um vivo.
A orca caía. Não mais celeste, o furo da bala afirmava que seu lugar era no chão - mais precisamente abaixo do nível do mar, perto de onde dois rapazes, uma moça, um menino e um croissant estavam - perto não, em cima mesmo.
O sol continuava brilhando forte e o passarinho namorava outra passarinha que ele encontrou numa fonte, não muito longe dali.
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