quinta-feira, 10 de abril de 2014

Tarde de quinta

Ele abraçou meu corpo cansado,
Beijou meus lábios secos
Passou a mão em meus cabelos assanhados.
Sorriu de leve
Repousou seus olhos nos meus
Deu um pouco do tempo dele
E eu dei um pouco do meu.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Fumaça e vapor

Eram duas nuvens. Uma era fumaça, outra era vapor. A primeira vinha dum cigarro mal fumado, a segunda duma chaleira de porcelana. Encontraram-se casualmente, numa sexta bagunçada. A princípio não sabiam bem o que fazer, o chá e o tabaco também ainda estavam confusos, sem entender o que acontecia.
Numa dança leve, descontraída, depois de alguns dias, se comunicavam sem som. Aos poucos e imperceptivelmente se misturavam. O doce aroma do vapor de chá, simples, fresco, vívido e novo, mas com ares de antiquíssimo. A amarga baforada de fumaça, poluída, seca, vivida, angustiadamente triste, mas rebelde, dançante e inconstante. Os dois se viram iguais. Fluidos, aéreos, livres. Apenas se observavam, e se entrelaçavam, sem saber que dali se tornariam uma só nuvem amena, que permaneceria no alto da sala, suavemente alheia dos outros.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Sonhos

Chuva. Parecia chover lá fora. Remexeu-se na cama, mantinha seus olhos fechados. Lambeu seus lábios ressecados. Tentou retomar o sonho. O nó na garganta sufocava-a mais e mais. Apertava o travesseiro contra si com mais força. O sonho, queria o sonho. Tentava relembrar os detalhes. A claridão do quarto (estava mesmo claro? era mesmo um quarto?). Tons de laranja, vermelho e amarelo, era tudo que podia lembrar do sonho. E ele. Lembrava perfeitamente dele. O rosto dele. O contato das mãos. Nunca ficaria assim com ele. Nunca mais ficaria assim tão perto dele.
Ela andava numa sala, ou praça. Sentou-se num banco, ou num sofá, poderia até ser uma cama, só sei que sentou-se lá. Estava cansada, algo incomodava ela. Procurava no chão algo interessante que pudesse fingir observar. Ele se aproximava. O coração dela começava a pulsar mais forte. Ele sorriu, falou que estava com saudade, chamou-a pelo apelido. Conversaram sobre tantas coisas, sobre a vida, sobre como os amores iam mal. O namorado dele só queria fugir. A namorada dela só queria brincar. Riram das desventuras. Seguraram-se as mãos. Eles se entendiam. Ela olhou para ele. Ele olhou para ela. Estavam sincronizados dentro d’água e não perceberam. A falta de ar que sentiam, achavam que vinha por outro motivo. E era mesmo, pois naquela água eles podiam respirar. As cores atrás dele avisavam-na que estava entardecendo. Eles se aproximavam. E a cada milímetro a mais, tudo parecia menos nítido. Ele segurava seu rosto. Falou algo. O que ele tinha falado? Algo sobre não contar nada a ninguém, talvez. Ele deu aquele sorriso tímido. Fecharam os olhos. Ela conseguia ouvir o barulho do seu coração. O leve toque de seus lábios no dele. Um beijo. Ah, um beijo, finalmente. Lá ela poderia sentir prazer sem que houvesse culpa. Ninguém saberia. O cheiro dele preenchia suas narinas. Ela não queria sentir culpa, mas não conseguia se perdoar.
“Foi só um sonho”
Não conseguia se perdoar por ter sido apenas um sonho.
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Abriu os olhos com dificuldade. Lágrimas caíam sem parar. A realidade esmagava qualquer sonho que ela pudesse ter. Demorou algumas horas até dormir de novo. Acordou sem que houvesse sonhado nada dessa vez.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Gotas

Ela mergulhou naquele mar prata. Imersa, consumia o ar guardado nas bochechas e pulmão. Até onde poderia ir? Por quanto tempo? Todo o seu corpo estremeceu de curiosidade. E se deixou afogar. Dentro de sua mente, a imensidão se abria. Com nós na garganta, a noite engolia-a. Dificultosamente, entre lágrimas, o oceano vomitava espumas na areia. De longe gritavam seu nome, o som chegou numa onda surda. Aos poucos perdia sua solidez, dissipando-se de dentro para fora. Tornando-se mais um pedaço daquele mar.
Cada partícula sua agora começava a se acalmar. Num dia passado, longe deste universo, ela sonhara ideias de açúcar, com pessoas de algodão - como naquela música - e amores com cheiro de chá de capim santo, que lentamente não iam mais fazendo sentido algum. A água com sal diluía sua vida de pouquinho, começando pelas narinas e boca, descendo pela garganta, chegando aos pulmões cansados da fumaça de cigarros que ela não fumou.
A cor preferida dela era o azul, o animal favorito, o pássaro. Amava dias chuvosos e o aconchego de abraços carinhosos. Tinha um sorriso lindo, uma alma doce como seus sonhos e uma inquietude particular no coração.
Gritos, lágrimas e desespero preencheram aquela noite cheia de vazios. Antes que tudo fosse consumado, num sussurro inaudível, tudo o que era para ter sido dito outrora, foi, neste instante, proferido. E a praia, agora, tem o som tímido de declarações de amor.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Sinto muito.

E tu sabe o que eu sinto, moça? Sinto nada.
Aliás, sinto.
Sinto tua indiferença e teu ódio por todas as coisas que eu faço. Sinto tua paixão incondicional por mim também. Sinto tua repulsa e atração, teu tesão e tua frigidez. Sinto tua pena, teu orgulho, teu sofrimento e tua felicidade ao me ver. Sinto milhões de coisas tuas que me afetam e me corroem. E essas coisas tuas dissiparam todos os meus sentimentos, me arrancaram a casca e trituraram meu miolo.
Sinto também dor de cabeça. Enxaqueca. Febre, tontura, náusea. Irritação no estômago. Sinto o peso da responsabilidade por ter te cativado, raposa. Por ser tão difícil e cansativo te manter bem, não me restaram forças. E tuas lágrimas são minha culpa, eu sinto, teu sorriso, tua agonia e teu prazer também. Presa na pior gaiola, pássaro, assim como eu, prefere morrer. Debatendo-se, na angústia de se libertar. E uma vez que a gaiola abrir, pássaro não vai voltar. O alpiste de amor que tu dás, serve para forrar o estômago cheio de úlceras, mas não alimenta. Ele é suficiente para me manter viva, porém desnutrida.
E sinto a dificuldade que meu sorriso tem para abrir agora. E os abraços que antes eram confortáveis, agora só estranhos são. Horas mudas, por não se ter o que conversar. Beijos frios, por não ter o porquê de beijar. Mãos sozinhas e geladas.
Aparentemente, você não sente o mesmo.
É isso, moça, sinto muito.

domingo, 24 de novembro de 2013

Morrer, viver, ser, encontrar-se, e essas coisas todas que nos importam e não nos importa.

Um dia ele morreu. E, quando ele morreu, finalmente ficou satisfeito. O corpo miúdo em que se encontrava anteriormente começava a perecer. Morreu cedo, morreu tarde, existem controvérsias e vários pontos de vista. Ele não se importava. Ele REALMENTE não se importava. E nenhum de vocês sabe como é não dar a mínima para si. Ele finalmente pôde desdobrar sua alma e encontrou o infinito. Ele era quem ele queria ser, era o que ele poderia ser, era o que ele nunca imaginou que seria, e por incrível que pareça não houve desapontamento, pois ele não tinha mais nome, não carregava nenhum rótulo, e os preconceitos não existiam, o conceito era reformulado de segundo em segundo, ao ponto que nem conceitos poderiam mais existir. E ele sabia de tudo sobre mundo e não sabia nada. Descobriu milhões de coisas, guardou elas nos buraquinhos que aquele corpo peçonhento fez na alma, encheu-se. E de tanto se encher, expandia-se mais e mais. Ele sabia que poderia ser o próprio infinito. Sabia que era isso que se tornaria.
Atordoado, percebeu por fim que por si já estava finito. Percebeu que havia mais nada a se fazer consigo. Mas era algo inerente a sua alma ser infinito. O que poderia estar faltando? De longe observou a Terra novamente. Como havia sentido raiva daquele lugar…  Como sabia que lá não era onde ele pertencia… Mas algo havia sido deixado lá. Sim… Era isso… A sua alma… Uma alma grande como o infinito não caberia em um corpo só. Fora dividida.
Existia mais alguém com sua alma. Alguém igual a ele. Alguém…
Mas… Então… Aquele sentimento de vazio, de não pertencer, de algo além… Era a falta de si. De encontrar-se. Procurando em si algo que nunca poderia achar, ele foi infeliz. E como uma luz de amanhecer entrando por sua janela, ele soube que bastava achar-se em outro alguém para ser feliz.
E nenhum de vocês sabe como é se importar consigo. Num impulso (parecido com a morte), decidiu voltar. Deveria achar sua outra parte. Dobrou-se mil vezes e foi.


Num choro agudo. Em 1995.

domingo, 13 de outubro de 2013

Qual o seu nome?

Ela acordou como se o ontem não houvesse existido. Tomou café, escovou os dentes, leu os jornais. Decidiu não ir à aula. Decidiu não ver pessoas. Escondeu-se no cobertor, assistiu filmes e passou esse dia assim.
No outro dia, ela acordou como se a semana não houvesse passado. Escreveu dois poemas de cinco estrofes sobre a luz do sol. Tomou chá e rezou. Era um dia de domingo anormal.
Dia seguinte era uma quinta e precisava ir para a aula. Mas o domingo se prolongou por mais algumas semanas.
Arrumou o quarto em uma sexta, descobriu onde havia perdido um livro que lera na infância. Resolveu relê-lo, mas parou na oitava página. Resolveu esquecer sua infância também. Esquecer não. Tal época nunca existiu.
Achou o celular jogado nas roupas sujas do banheiro na madrugada de sábado. Nada de novo, realmente não tinha esperanças que alguém a ligasse. Nenhuma esperança mesmo. Até decidiu que esperança era apenas uma palavra sem significado.
No domingo saiu de casa. Foi para um bar à noite. Onde encontrou vários amigos. Sarah e Fred. Eles acenaram de longe e disseram que já estavam de saída. Ela também estava, mas eles iam para um lado totalmente contrário ao dela. Apesar de ela saber que a casa deles não era para aquele lado, sorriu e pegou um ônibus.
No ônibus, haviam quatro pessoas. O motorista, o trocador, um homem e ela. O homem sentou-se ao lado dela e anunciou um sequestro. Sem querer ela deu uma risada e levou um tiro. O motorista quis parar o ônibus no desespero, mas o homem mandou continuar a dirigir o automóvel. O trocador olhava para a cena espantado, só pensava nos seus filhos (que ainda não tinha) e na sua mulher (a mulher do restaurante que não cobrou os 10%).
Ela sangrava. Sentia um prazer diferente. Um alívio. Era entorpecente o terror que sentia.
O homem estava assustado por ela não parar de sorrir. Era o pior sorriso que ele já havia visto. Ele identificou como o sorriso que sua mãe deu quando ele tinha 10 anos e perguntou pelo paradeiro de seu pai. Apesar de sua mãe não ter sorrido de fato.
Ela sentiu algo estranho querer subir por sua garganta e relembrou de fatos inexistentes da infância. Lembrou do Francisco. Um homem que, segundo ela, deveria ter levado um tiro em seu lugar.
Vomitou sangue e riu novamente. Ela não pensava em muita coisa. Mas lembrou dos dias que não existiram. Do amor que nunca teve. Dos amigos que moravam longe e da família que não havia morrido, mas participava da sua vida.
Decidiu esquecer tudo. O ônibus estava girando morro abaixo.
O último barulho que ela identificou, mesmo que com dificuldade, foi o do seu celular tocando.
Ela deu o último sorriso de prazer da semana. Mesmo que sua cota de sorrisos diários já houvessem se extrapolado.