terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Quase pra meia noite eu te conto esse segredo

 Desligarei as luzes, acenderei um cigarro, abrirei a geladeira e a luz fria vai denunciar minha face quente das lágrimas que caem, do nariz que escorre, do rubro ardente de raiva, frustração, medo e cativo me manterei. Pegarei uma cerveja - já será a décima - e sentirei com todas as forças a solidão com seu ar lânguido, mas peçonhento.

Comerei o resto do que era pra ser de amanhã, com a certeza que amanhã sentirei fome e não comerei, pois devorarei tudo nesse hoje numa ânsia de sentir-me cheio de algo e esquecerei que o futuro existe. Completarei o estômago, destruirei o fígado - ou qualquer coisa assim talvez. Não seria cômico se por ventura eu buscasse no escuro - quando a porta da geladeira já estivesse fechada - por uma faca afiada a fim de cortar os pulsos e encontrasse apenas facas desamoladas e sem serra? Eu tentaria da primeira vez e seria uma faca de passar manteiga, tentaria uma segunda vez e encontraria uma faca igual e então faria um desafio a mim mesme: Se a terceira fosse outra assim eu desistiria da ideia… E assim seria. Deitaria na rede um pouco frustrado e um pouco agradecido que o destino não quis me ajudar nesses atos irracionais e coçaria os pulsos com muita força apenas pra me lembrar que estou vivo e sinto dor.

Mas se eu voltar ao planejamento, eu abrirei a cerveja e acenderei outro cigarro, pois aquele já teria virado uma bituca afogada no cinzeiro úmido.

Sentarei no sofá e chorarei desconsolade, sendo observado pelos olhos estáticos de cada estatueta cristã naquele altar residencial. Elas não me dirão nada, nem moverão um trisco de suas faces levemente deformadas de trabalho artesanal. Afinal, são apenas suvenires da empresa que mais lucra com mentiras, apenas simbolismos de coisas que perderam o significado com o passar de 2023 anos, que em poucos minutos se tornarão 2024 anos.

Meu pulmão cansado de tantos cigarros, tentará alertar que não aguenta mais, mas eu acenderei outro. E escreverei votos de prosperidade e saúde aos outros, desejando quase nada de bom a mim em segredo.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Perfurações Internas

Mais uma vez imersa nessa doença sem cura. Atrasando as respostas certas, apegada ao que vai se dissipar. Eu minto e desminto ideias sobre isso para mim, descarto e compro as possibilidades que possuem destino certo, sem saber a que ponto chegarei. É que minha voz falha quando tento confessar coisas, as palavras vão rasgando do estômago até a boca, vomito sangue e não sai o que eu quero. Só percebo que estou vivíssima e que meu coração ainda bate quando ele faz como se fosse pular para fora do corpo, então, me calo. Mas as palavras são agulhas correndo pelas minhas veias, remover deve doer menos.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Overkill

Eu estou lentamente sendo estrangulada pelos meus sentimentos. É um desastre. Eu tento pintar minhas unhas, mas minhas mãos tremem. É difícil respirar. A tesoura corta meus dedos. Eu não consigo me limpar. Sangra e sangra. Eu estou sangrando há três dias. São cortes profundos no peito que latejam e transbordam o liquido viscoso e sujo que eu deixo circular dentro de mim. Eu sou humana, que nojento. Eu tenho nojo de mim mesma. O mundo está desmoronando nas minhas costas e eu tento com tanto esforço segurar cada pedaço do que poderia deixar todo mundo feliz. Todo mundo deveria estar feliz. Eu pago as contas em dia, eu não choro na frente de ninguém, eu não digo que estou sentindo dor, eu me desestimulo todos os dias. Eu odeio o que eu faço com tanto desgosto. Todo mundo deveria estar feliz. Eu estou sustentando coisas insustentáveis, eu sou incrível, vejam, todos olhem para mim, eu quero que vocês agradeçam a minha presença hoje, eu quero luzes em mim, eu quero que vocês olhem para essas unhas pintadas, eu quero que vocês olhem minha maquiagem, meu delineador! Eu estou feliz, vejam! Eu pinto meu cabelo, eu danço, eu canto mal, eu me detesto, eu uso roupas bonitas. Todo dia eu escolho o que eu vou vestir. Podem olhar para mim, vocês verão falhas. Eu sou humana. Um grande pedaço de lixo ambulante. Ninguém vai me agradecer por eu fazer minhas obrigações. Eu estou tão presa na minha própria situação. Eu queria fugir, mas fugir é desistir. Meu deus, eu queria tanto desistir. É tão ruim acordar. Eu sou uma pobre coitada, que tristezinha eu sou, meu deus, olha toda essa atenção que eu quero chamar, tão pobrezinha, tão estúpida. Eu sou tão ridícula. Eu menti, eu não consigo mais fazer nada. Eu apenas fico sentada, olho para tudo e fico atônita. Eu estou em pânico. É uma sala branca sem porta nem janela. Tudo o que eu vejo são meus orgãos internos pulsando fora de mim. Cada um apodrece lentamente. E dói, dói muito, é uma dor tão grande. Ela não é física, mas dói tudo. Tudo dói.
Eu passo muito tempo mantendo minha mente longe da realidade. A realidade é um monstro. Ela é o meu bichinho de estimação que me odeia. A realidade se alimenta de mim. E eu (por que eu sou bastante estúpida) insisto em me alimentar dos meus sonhos. E (droga) eu estou morrendo de fome. Existe sempre alguém pra me lembrar que nada do que eu consegui foi por que eu mereci. Existe sempre alguém que vai me dizer que meus sonhos são egoístas demais. Eu quero uma casa. Sim, eu quero. Quero ficar só. Tão só de uma maneira que eu nunca fiquei só. Eu amo tanto ficar só. Eu odeio tanto ter que ficar só pra ser menos miserável. Eu me lembro de um dia que eu estava tão longe de casa e tão feliz. Mas eu estava tão longe de casa e tinha tanta gente ao meu redor que eu fiquei aterrorizada. Eu só queria ficar só, muito só. E era constrangedor me ver nessa situação. Eu estava triste, mas eu estava tão feliz. Eu só queria um tempo em que ninguém me visse, queria chorar desesperadamente por nenhuma razão. Eu queria chorar desesperadamente por que eu estava cercada de pessoas que eu observava e que me observavam. Foram alguns dias estranhos que passei. Todo dia é difícil, alguns são menos.
Eu continuo sentada olhando para os lados. Não existe lugar para ir? É isso? Mas eu sou tão forte, porra. Eu vou dar um soco na parede e vou sair correndo.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Isabela

Ah... que criatura cruel é Bela. Pior que Capitolina de Dom Casmurro, Isabela tem olhos castanhos. Não sei se você me entende, mas, das cores que podem existir em olhos, a castanha é a pior. Fitá-los é o mesmo que tentar enxergar o final de um poço de profundeza imensurável, de conteúdo indecifrável. Não há nada pior que cair de cabeça naquele olhar e acordar atordoada, sem enxergar nada com clareza. O sorriso dela, de tão maroto e brilhante, confunde minha cabeça. E se não se chamasse Isabela, seria Pandora, pois posso não saber o significado dos olhares que ela derrama em mim, mas sei que estão cheios de curiosidade. O sorriso dela denuncia o quanto ela gosta de me conhecer… Mas será mesmo? Os olhos maduros e o sorriso de criança maltratam minha certeza sobre as coisas. O que sei mesmo é o quanto eu gosto dela. O quanto queria que os olhares significassem desejo, e os sorrisos significassem “vem cá”. Mas, quem sabe - quem sabe? - ela só seja cruel. E como uma cigana mesmo, me lança olhares dissimulados, só para me provocar, só pra me atiçar e me prender, nada além disso. Que no fim, para ela, só ser desejada já é suficiente. Ah, não faça isso, Bela… Minha pobre alma pede num grito. Felizmente, - infelizmente também -, grito de alma ninguém escuta. Que medo eu tenho de você me descobrir, mesmo tendo quase certeza que descoberta estou. Se não soubesses de mim, não me olharias assim… Tenho quase certeza disso, se tu fores realmente cruel.

Mas, ah... Bela… Se teu desejo por mim fosse real, fosse concreto, fosse além de curiosidade, meu coração encontraria a felicidade plena. Eu dançaria na escuridão dos teus olhos, como se estivesse num salão cheio de luzes coloridas. Eu beijaria tua cor, beijaria tua alma, beijaria teu sabor e beijaria teu cheiro. Bela, você não seria mais tão cruel, te juro. Eu te chamaria até de santa, se você me deixasse acender qualquer faísca, que me permitisse entender, ver, contemplar por pelo menos um segundo, o que teus olhos castanhos escondem. Porque, para falar a verdade, eu não consigo acreditar em crueldade numa criatura de sorriso tão doce.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Pro dia dos namorados não passar em branco

Parece que passou menos de um mês, você me encontrou na sexta. Olhou meus olhos pequenos e sorriu, tocou minha mão e me beijou. Me amou pela primeira vez na sua cama e me envolveu com teus olhinhos sonolentos. Não foi tão errado quanto eu insisti que era. De repente, já comíamos pastel juntos e, entre mordidas e beijos, você me sorria mais. Não parecíamos ir a lugar nenhum, caminhávamos meio distraídos, dormindo abraçados num sofá sujo, de vez em quando, sendo devorados por muriçocas e ouvindo - e cantando - músicas, que nenhum casal ouviria - e cantaria - junto.
Casal, éramos um casal. Quando percebemos, tínhamos caminhado quase sete mil e novecentos quilômetros de onde estávamos. Quando eu dei por mim, já conhecia seus pais, seus tios, seus sobrinhos e seus amigos. E numa quarta, no mesmo sofá sujo, você me chamou, oficialmente, pra te acompanhar nesse caminho que a gente já atravessava durante esse tempo (que parece de ontem pra hoje). E foi como se você me oferecesse mais uma mordida do chocolate que eu já estava comendo. Foi incrivelmente feliz. Foi como se você oferecesse, além da mordida, um brownie, um biscoito e uma bola de sorvete. E agora, definitivamente, somos um casal. Afinal, comemos sanduíches juntos, e não só sanduíches, tomamos sucos de caixa também, e, às vezes, pra me fazer um pouquinho mais feliz, comemos coisas que fazem mal à sua gastrite, mas não muito, por que eu me preocupo contigo. Essas coisas que casais fazem, nós fazemos muito bem.
Nós fazemos tão bem, que eu me permiti por ti. Deixei que você me visse encolhida, chorando pequenos espinhos. Aceitei, com receio, teu ombro. Foi lá, então, que encontrei a calma. Deixei que você me visse expandida, transbordando alegria. Vi o sorriso mais lindo saindo dos teus olhos e decidi ser feliz mais vezes para vê-lo com mais frequência.
E é isso, você é meu casalzinho. Meu par. Somos a fumaça e o vapor. Somos uma nuvenzinha flutuando no alto da sala. Olhando pra todo mundo com cara de sono e, às vezes, dormindo num sofá sujo.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Lua

Ela estava lá, deitada no cobertor negro.
Na primeira vez, sentada, oblíqua,
Já não tão jovem, indecente, de meia-luz.
Diminuiria até fingir sumir.
Adormecida no ventre do céu,
Despertava de pouquinho, tenra.
No primeiro quarto, acordou.
Debruçada, abençoava os amantes.
Seu brilho frio lambia as peles, arrepio.

E agora ela estava lá.
Deitada, corpo nu,
Completa, cheia de tudo.
Admirando-a, acabei enfeitiçada.
Tomei banho naquela luz,
Vi-me imersa.

E agora, cá estou
Meio boba, meia-noite
Enamorada da Lua.

Tarde de quinta

Ele abraçou meu corpo cansado,
Beijou meus lábios secos
Passou a mão em meus cabelos assanhados.
Sorriu de leve
Repousou seus olhos nos meus
Deu um pouco do tempo dele
E eu dei um pouco do meu.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Fumaça e vapor

Eram duas nuvens. Uma era fumaça, outra era vapor. A primeira vinha dum cigarro mal fumado, a segunda duma chaleira de porcelana. Encontraram-se casualmente, numa sexta bagunçada. A princípio não sabiam bem o que fazer, o chá e o tabaco também ainda estavam confusos, sem entender o que acontecia.
Numa dança leve, descontraída, depois de alguns dias, se comunicavam sem som. Aos poucos e imperceptivelmente se misturavam. O doce aroma do vapor de chá, simples, fresco, vívido e novo, mas com ares de antiquíssimo. A amarga baforada de fumaça, poluída, seca, vivida, angustiadamente triste, mas rebelde, dançante e inconstante. Os dois se viram iguais. Fluidos, aéreos, livres. Apenas se observavam, e se entrelaçavam, sem saber que dali se tornariam uma só nuvem amena, que permaneceria no alto da sala, suavemente alheia dos outros.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Sonhos

Chuva. Parecia chover lá fora. Remexeu-se na cama, mantinha seus olhos fechados. Lambeu seus lábios ressecados. Tentou retomar o sonho. O nó na garganta sufocava-a mais e mais. Apertava o travesseiro contra si com mais força. O sonho, queria o sonho. Tentava relembrar os detalhes. A claridão do quarto (estava mesmo claro? era mesmo um quarto?). Tons de laranja, vermelho e amarelo, era tudo que podia lembrar do sonho. E ele. Lembrava perfeitamente dele. O rosto dele. O contato das mãos. Nunca ficaria assim com ele. Nunca mais ficaria assim tão perto dele.
Ela andava numa sala, ou praça. Sentou-se num banco, ou num sofá, poderia até ser uma cama, só sei que sentou-se lá. Estava cansada, algo incomodava ela. Procurava no chão algo interessante que pudesse fingir observar. Ele se aproximava. O coração dela começava a pulsar mais forte. Ele sorriu, falou que estava com saudade, chamou-a pelo apelido. Conversaram sobre tantas coisas, sobre a vida, sobre como os amores iam mal. O namorado dele só queria fugir. A namorada dela só queria brincar. Riram das desventuras. Seguraram-se as mãos. Eles se entendiam. Ela olhou para ele. Ele olhou para ela. Estavam sincronizados dentro d’água e não perceberam. A falta de ar que sentiam, achavam que vinha por outro motivo. E era mesmo, pois naquela água eles podiam respirar. As cores atrás dele avisavam-na que estava entardecendo. Eles se aproximavam. E a cada milímetro a mais, tudo parecia menos nítido. Ele segurava seu rosto. Falou algo. O que ele tinha falado? Algo sobre não contar nada a ninguém, talvez. Ele deu aquele sorriso tímido. Fecharam os olhos. Ela conseguia ouvir o barulho do seu coração. O leve toque de seus lábios no dele. Um beijo. Ah, um beijo, finalmente. Lá ela poderia sentir prazer sem que houvesse culpa. Ninguém saberia. O cheiro dele preenchia suas narinas. Ela não queria sentir culpa, mas não conseguia se perdoar.
“Foi só um sonho”
Não conseguia se perdoar por ter sido apenas um sonho.
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Abriu os olhos com dificuldade. Lágrimas caíam sem parar. A realidade esmagava qualquer sonho que ela pudesse ter. Demorou algumas horas até dormir de novo. Acordou sem que houvesse sonhado nada dessa vez.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Gotas

Ela mergulhou naquele mar prata. Imersa, consumia o ar guardado nas bochechas e pulmão. Até onde poderia ir? Por quanto tempo? Todo o seu corpo estremeceu de curiosidade. E se deixou afogar. Dentro de sua mente, a imensidão se abria. Com nós na garganta, a noite engolia-a. Dificultosamente, entre lágrimas, o oceano vomitava espumas na areia. De longe gritavam seu nome, o som chegou numa onda surda. Aos poucos perdia sua solidez, dissipando-se de dentro para fora. Tornando-se mais um pedaço daquele mar.
Cada partícula sua agora começava a se acalmar. Num dia passado, longe deste universo, ela sonhara ideias de açúcar, com pessoas de algodão - como naquela música - e amores com cheiro de chá de capim santo, que lentamente não iam mais fazendo sentido algum. A água com sal diluía sua vida de pouquinho, começando pelas narinas e boca, descendo pela garganta, chegando aos pulmões cansados da fumaça de cigarros que ela não fumou.
A cor preferida dela era o azul, o animal favorito, o pássaro. Amava dias chuvosos e o aconchego de abraços carinhosos. Tinha um sorriso lindo, uma alma doce como seus sonhos e uma inquietude particular no coração.
Gritos, lágrimas e desespero preencheram aquela noite cheia de vazios. Antes que tudo fosse consumado, num sussurro inaudível, tudo o que era para ter sido dito outrora, foi, neste instante, proferido. E a praia, agora, tem o som tímido de declarações de amor.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Sinto muito.

E tu sabe o que eu sinto, moça? Sinto nada.
Aliás, sinto.
Sinto tua indiferença e teu ódio por todas as coisas que eu faço. Sinto tua paixão incondicional por mim também. Sinto tua repulsa e atração, teu tesão e tua frigidez. Sinto tua pena, teu orgulho, teu sofrimento e tua felicidade ao me ver. Sinto milhões de coisas tuas que me afetam e me corroem. E essas coisas tuas dissiparam todos os meus sentimentos, me arrancaram a casca e trituraram meu miolo.
Sinto também dor de cabeça. Enxaqueca. Febre, tontura, náusea. Irritação no estômago. Sinto o peso da responsabilidade por ter te cativado, raposa. Por ser tão difícil e cansativo te manter bem, não me restaram forças. E tuas lágrimas são minha culpa, eu sinto, teu sorriso, tua agonia e teu prazer também. Presa na pior gaiola, pássaro, assim como eu, prefere morrer. Debatendo-se, na angústia de se libertar. E uma vez que a gaiola abrir, pássaro não vai voltar. O alpiste de amor que tu dás, serve para forrar o estômago cheio de úlceras, mas não alimenta. Ele é suficiente para me manter viva, porém desnutrida.
E sinto a dificuldade que meu sorriso tem para abrir agora. E os abraços que antes eram confortáveis, agora só estranhos são. Horas mudas, por não se ter o que conversar. Beijos frios, por não ter o porquê de beijar. Mãos sozinhas e geladas.
Aparentemente, você não sente o mesmo.
É isso, moça, sinto muito.

domingo, 24 de novembro de 2013

Morrer, viver, ser, encontrar-se, e essas coisas todas que nos importam e não nos importa.

Um dia ele morreu. E, quando ele morreu, finalmente ficou satisfeito. O corpo miúdo em que se encontrava anteriormente começava a perecer. Morreu cedo, morreu tarde, existem controvérsias e vários pontos de vista. Ele não se importava. Ele REALMENTE não se importava. E nenhum de vocês sabe como é não dar a mínima para si. Ele finalmente pôde desdobrar sua alma e encontrou o infinito. Ele era quem ele queria ser, era o que ele poderia ser, era o que ele nunca imaginou que seria, e por incrível que pareça não houve desapontamento, pois ele não tinha mais nome, não carregava nenhum rótulo, e os preconceitos não existiam, o conceito era reformulado de segundo em segundo, ao ponto que nem conceitos poderiam mais existir. E ele sabia de tudo sobre mundo e não sabia nada. Descobriu milhões de coisas, guardou elas nos buraquinhos que aquele corpo peçonhento fez na alma, encheu-se. E de tanto se encher, expandia-se mais e mais. Ele sabia que poderia ser o próprio infinito. Sabia que era isso que se tornaria.
Atordoado, percebeu por fim que por si já estava finito. Percebeu que havia mais nada a se fazer consigo. Mas era algo inerente a sua alma ser infinito. O que poderia estar faltando? De longe observou a Terra novamente. Como havia sentido raiva daquele lugar…  Como sabia que lá não era onde ele pertencia… Mas algo havia sido deixado lá. Sim… Era isso… A sua alma… Uma alma grande como o infinito não caberia em um corpo só. Fora dividida.
Existia mais alguém com sua alma. Alguém igual a ele. Alguém…
Mas… Então… Aquele sentimento de vazio, de não pertencer, de algo além… Era a falta de si. De encontrar-se. Procurando em si algo que nunca poderia achar, ele foi infeliz. E como uma luz de amanhecer entrando por sua janela, ele soube que bastava achar-se em outro alguém para ser feliz.
E nenhum de vocês sabe como é se importar consigo. Num impulso (parecido com a morte), decidiu voltar. Deveria achar sua outra parte. Dobrou-se mil vezes e foi.


Num choro agudo. Em 1995.

domingo, 13 de outubro de 2013

Qual o seu nome?

Ela acordou como se o ontem não houvesse existido. Tomou café, escovou os dentes, leu os jornais. Decidiu não ir à aula. Decidiu não ver pessoas. Escondeu-se no cobertor, assistiu filmes e passou esse dia assim.
No outro dia, ela acordou como se a semana não houvesse passado. Escreveu dois poemas de cinco estrofes sobre a luz do sol. Tomou chá e rezou. Era um dia de domingo anormal.
Dia seguinte era uma quinta e precisava ir para a aula. Mas o domingo se prolongou por mais algumas semanas.
Arrumou o quarto em uma sexta, descobriu onde havia perdido um livro que lera na infância. Resolveu relê-lo, mas parou na oitava página. Resolveu esquecer sua infância também. Esquecer não. Tal época nunca existiu.
Achou o celular jogado nas roupas sujas do banheiro na madrugada de sábado. Nada de novo, realmente não tinha esperanças que alguém a ligasse. Nenhuma esperança mesmo. Até decidiu que esperança era apenas uma palavra sem significado.
No domingo saiu de casa. Foi para um bar à noite. Onde encontrou vários amigos. Sarah e Fred. Eles acenaram de longe e disseram que já estavam de saída. Ela também estava, mas eles iam para um lado totalmente contrário ao dela. Apesar de ela saber que a casa deles não era para aquele lado, sorriu e pegou um ônibus.
No ônibus, haviam quatro pessoas. O motorista, o trocador, um homem e ela. O homem sentou-se ao lado dela e anunciou um sequestro. Sem querer ela deu uma risada e levou um tiro. O motorista quis parar o ônibus no desespero, mas o homem mandou continuar a dirigir o automóvel. O trocador olhava para a cena espantado, só pensava nos seus filhos (que ainda não tinha) e na sua mulher (a mulher do restaurante que não cobrou os 10%).
Ela sangrava. Sentia um prazer diferente. Um alívio. Era entorpecente o terror que sentia.
O homem estava assustado por ela não parar de sorrir. Era o pior sorriso que ele já havia visto. Ele identificou como o sorriso que sua mãe deu quando ele tinha 10 anos e perguntou pelo paradeiro de seu pai. Apesar de sua mãe não ter sorrido de fato.
Ela sentiu algo estranho querer subir por sua garganta e relembrou de fatos inexistentes da infância. Lembrou do Francisco. Um homem que, segundo ela, deveria ter levado um tiro em seu lugar.
Vomitou sangue e riu novamente. Ela não pensava em muita coisa. Mas lembrou dos dias que não existiram. Do amor que nunca teve. Dos amigos que moravam longe e da família que não havia morrido, mas participava da sua vida.
Decidiu esquecer tudo. O ônibus estava girando morro abaixo.
O último barulho que ela identificou, mesmo que com dificuldade, foi o do seu celular tocando.
Ela deu o último sorriso de prazer da semana. Mesmo que sua cota de sorrisos diários já houvessem se extrapolado.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Primeira Carta

Querido João, (é assim que se começa uma carta?)

Antes de tudo, eu sei que desapareci… Antes mesmo de adoecer, eu me deixei desaparecer… Eu sempre faço isso… Deixo as coisas seguirem rumos aleatórios e muitas vezes indesejados. Mas eu nunca me esqueci daqueles dias olhando para o céu e imaginando nossos anos de glória que ainda estavam por vir. Nunca me esqueci das cenas de musicais que contracenamos sem música. Nunca me esqueci do beijo que não deveríamos ter dado. E dos outros beijos que também não deveríamos ter continuado. Ou deveríamos.
Depois de um tempo pensando, eu percebi que o erro foi a poesia. Ela que corrompeu nossas almas e nos fez mais apaixonados por tudo, a arte que corria nos nossos sangues fez tudo intenso demais. Intenso demais. Perfeitamente intenso. A paixão pela música, fez a nossa trilha sonora ser a melhor trilha sonora. A paixão pela literatura, fez a nossa literatura ser a melhor literatura. A paixão entre nós, fez de nós perfeitos. Mesmo que paixão não tenha sido. ("Isso é o que eles querem que você pense")
Você sabe como você é complicado. Você é assim: tudo o que acontece ao seu redor pode estar certo, mas do nada tudo pode vir a estar definitivamente errado.
Como a gente, que uma hora era para ser para sempre e na outra era melhor que nunca tivesse sido.
Só nós sabemos da nossa ligação. De como, no dia que te conheci, algo em algum lugar brilhou, chacoalhou e cantou. E mesmo que agora façam alguns meses sem ter nenhum contato com você, eu sei que ter te conhecido foi a perfeição.
Peço que perdoe-me por ter desaparecido, eu tive medo de você não querer mais me ver. E o medo virou vergonha de ter parado de falar com você… E a vergonha virou medo de voltar a falar com você.
Peço que perdoe-me por desaparecer de novo.
Amo você. Fique bem.

"Caso você recebesse um prazo, como iria vivê-lo?"

Ela havia escrito cartas. Sentada no chão, envelopava cada uma com carinho singular. Delicadamente dobrava o papel branco e colava os selos. Hoje seria o dia que as estrelas a levariam para onde ela sempre pertenceu.
Lá fora nevava. “Será que elas vão conseguir vir me buscar nesse frio?”, pensava ela.
A caneca com chocolate quente fazia manchas circulares no soalho.
“Ainda bem que o natal já passou.”
Ela chorava de pouquinho.
Queria que as palavras tivessem movimento, que dançassem, que pudessem brincar de pega-pega e esconde-esconde, queria que elas cochichassem ao pé do ouvido, que tivessem cheiro e sabor… Mas, palavras precisam de cuidado, senão são tão frias quanto os flocos que caíam lá fora do céu.
Um rato cavocava a parede.
Ai ai ai...”, é sempre difícil se levantar sentindo dor. Ela se dirigiu à sua cama desarrumada e deitou-se com cuidado.
As cartas no chão cantavam baixinho, sem ela perceber.
Por alguns meses esquecida por todos, agora ela sabia que ninguém sentiria tanto a sua falta, quando o fim permanente chegasse.
O maior medo dela era do fim ser mesmo permanente.
A leve cantoria atraía as estrelas para mais perto, da janela observavam o lento adormecer da menina.
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Naquela noite, ninguém viu, mas surgiu mais uma estrela no infinito.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Musiquinha

Uma música baixinha ecoa
Notas há muito esquecidas
Algumas que eu mal sabia que existiam.
Uma melodia com cheiro de flores e sabor doce
Com cor de purpurina e enfeitada com balões coloridos
Num quarto branco e iluminado
Sozinha eu a ouço.
Tons delicados de anil discretamente preenchem o teto do cômodo
E eu quase via o céu


O ritmo me convida para dançar
Ah... E é como se eu fosse tão graciosa quanto esses pássaros
Que voam e cantam alegres, junto com a melodia crescente
Depois de rodopios e passos meio bobos
Respiro ofegante, mas não estou mais cansada
Meus pés diziam adeus ao chão
Minha mente sobrevoava o quarto
E eu quase tocava o céu


Abri uma cortina e percebi flores bordadas
Procurei a origem da música
Examinei gavetas antigas
Prateleiras empoeiradas
Guarda-roupas quebrados
Mas todos os lugares que eu havia procurado
Estavam vazios.
Foi aí que sem querer eu a achei
Escondidinha, atrás de rachaduras do meu peito
Uma pequena e delicada caixinha de música
Ela tocava tímida, mas vibrante
A melodia do meu coração.

Julieta

E docemente, como chocolate, abriu um sorriso que eu poderia morder.


Surpreendeu-me como me cativastes cedo e sem ao menos conhecer-te bem. Se não existia amor ao primeiro ver, agora existe. E as fagulhas que teus olhos expeliam tocaram incandescentes na minha pele, se tal fogo antes queimava, agora só aquece. E mal notei que minha pele descascava, que eu me tornava vulnerável, e ao segundo toque de teu olhar, quase não suportei, por que não era comigo que você estava naquele dia.
Já acostumada a não me deixar cativar, via todas as pessoas mais de longe, a uma distância segura, certa de que sozinha, dentro da minha fortaleza, tudo iria funcionar como o planejado, mas dessa distância eu te vi, e percebi que precisava de ti tão mais perto.


P.S.: Eu não ia postar esse pequeno texto, mas é que sei lá sabe.

domingo, 21 de julho de 2013

Um doce presente feito de ouro.

Um dia, andando pelas ruas da noite, em um caminho meio que distante de tudo aquilo que algum dia eu já andei, encontrei você.  Estranha, desengonçada, engraçada e ao mesmo tempo meiga, mas nada que fosse alguma coisa para os meus olhos naquele momento.  O conhecido desconhecido,  o alguém que estava lá mas ao mesmo tempo não estava, como um personagem coadjuvante em um emaranhado de estórias paralelas da minha vida, como todos aqueles que me cercavam de alguma forma... Praticamente inofensiva.
Após o dia, conversas foram, conversas vieram ; risos, abraços, problemas compartilhados, medos expostos, uma gotícula de vida transbordando diante de um breve encontro impessoal.  E para todos os meus pré-conceitos e idéias, tudo se mostrou tão... tão... humano.
Você aparenta ser promiscua, alguém não tão importante, mas tudo me erra nesse principio. O lado por trás da mortalha de tal papel vivido para os demais, existe alguém que sangra, e esse alguém está cheio de tesouros, uma vida de cicatrizes, de erros e acertos, mas uma vida que não tem a intenção de emergir para ninguém. A vida de alguém que desperta o meu interesse, me faz refletir, que me faz revisitar a minha própria, e relembrar aquilo que sempre prometi: ver além de tudo...
Não sei se me perco em devaneio e subjetividade, ou se retorno e digo as coisas cruas, mas um eu lírico ou simplesmente o eu do passado, pede um pouco de essência, para alguém com tão pouco revelado mais um mar a ser desbravado. Enxergar como um empreendedor de sonhos que esse diamante tem muito o quê ser extraído; riquezas que não servirão para ninguém, a não ser para você mesma, e de mim, só teria a alegria de observar, nem q seja de longe, essas maravilhas que podem surgir.
E tudo tão imenso, que tenho medo de dizer e não ser compreendido corretamente, por que as palavras podem pecar, mas a sensibilidade fala outra língua, como um fluxo intuitivo continuo de que, tudo o que você pode ser, será mil vezes melhor, só depende de você.

Todas as ruas e sonhos, todos os encontros e desencontros, estar aqui, só servem para me dizer que, uma amiga, ou melhor, uma pessoa, com um enorme potencial, não pode ser, simplesmente ou praticamente inofensiva; praticamente inofensiva.

Autoria: Emerson Maciel.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Fim de Amor

Carregada de emoções, com os pulsos judiados. Corria naquele corredor há horas. Um passo a cada hora. Delicadamente arrancava da boca a lembrança do beijo daquele menino. Lentamente apressava-se até o final daquele corredor. A porta parecia querer abraçá-la, embalar a doce donzela por mais algumas horas dolorosas. Impaciente, o silêncio gritava por ação. Ela esperava as horas terminarem, remoendo e removendo a cor dos esmaltes com os dentes. Do minuto, ela sentia um ano coçando sua coluna. E a maçaneta pedia a mão da moça em casamento. A moça poderia aceitar se a maçaneta pudesse vestir uma roupa bonita. O gemer prazeroso da porta indicava que a saída seria melhor que o esperado. O doce raio de sol cresceu dentro dos olhos da menina. Aceitou seu trágico destino de não ser amada e arrumou as malas. O vento soprou-a para outro universo onde poderia manter o esmalte na unha intacto.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Precisado

Eu precisava de mais um gole amargo do vinho barato.
Eu precisava de mais uma dose intragável daquela pinga incolor.
Precisava dum pedaço daquele pão dormido
Duma tragada daquele cachimbo
Dum beijo do garçom
Precisava do algo mais debruçado na mesa redonda
Eu precisava daqueles panos sujos
Eu precisava me limpar os vômitos
Precisava catar os queijos do esgoto
Comê-los, deliciar-me
Precisava de uma cédula
De um corpo retirar algum dinheiro
De uma arma, arranjar um corpo
Daí então retirar o algum
E ao garçom pedir mais uma rodada daquilo
Daquilo que nem sei mais o nome
Mas de todos aquilos, parecia ter o melhor sabor.


A visão começou a tresloucar
Sussurraram três tiros
Na pele, o sangue nem queria escorrer
O sorriso deu uma risada
Fechou-se a conta
Quantas doses de bebidas amargas pagam meu erro?
Alguém gritou uma prece
Não rezem perto de mim.
Precisava agora de novo daqueles panos sujos
Precisava do algum
Alguém chame um médico!
Desculpe, garçom, foi bom enquanto durou
Mas meu coração foi atingido
Oh, você não é meu garçom
Não me aperte assim,
O que você está fazendo?
Garçom?
Mova-me, mas não queira me retirar.


Trocaram-me a blusa
A estampa rubra formava-se
Numa veste semelhante à minha
Contudo, trocaram-me
Pouco tempo depois a luz pálida cegou-me
Chegou-me meia-noção
De fato, a blusa era minha.


Soantemente o delicado barulho da vida irritava-me
Os bipes gritavam na minha enxaqueca
A ressaca entorpecida com alguns tubos engraçados
Estendido estava lá eu
Taciturno, semi-vivo
Mil homens banhados de luz
Estendiam ao meu peito bisturis e agulhas
Entendiam o meu coração, será?
Quase lembro-me da sensação
Era como se apaixonar
Que droga.